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Nina Lemos

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No Tinder, deveria existir um campo para a pessoa dizer se tem uma arma

Nina Lemos

18/01/2019 04h00

Foto: Getty Images

Outro dia, conversando com uma colega jornalista, concluímos que boa parte das mulheres já passaram, em geral quando mais novas, por um relacionamento abusivo. Sabe o cara que tem tendências violentas? Já tive um assim. Basta dizer que o romance acabou com ele me jogando no chão de seu apartamento.

Sim, eu nunca mais o vi. E, sim, fui na delegacia. E nunca mais tive um relacionamento abusivo. Se um cara levanta a voz para mim já é o sinal vermelho do PARE AGORA. Mas me vi pensando nessa história infeliz ao ler o novo decreto que flexibiliza o posse de arma no Brasil. Claro que veio a pergunta: "e se ele estivesse armado?".

Como disse, não sou a única: muitas de minhas amigas já passaram por relacionamentos onde sofreram abusos morais, verbais ou físicos (ou os três). Na noite de terça-feira, dia em que o decreto foi assinado, tive pesadelos imaginando cenas de terror que poderiam ter acontecido. "Se eles tivessem armados". Pelo jeito não sou a única a me apavorar com esses pensamentos. No twitter, #ESeEleEstivesseArmado já virou hashtag. Leia e se arrepie.

Não, que eu saiba, nunca saí com um cara que tivesse uma arma. Mas… e agora, como vai ficar?

"Daqui para frente, quando conhecer um cara no Grindr, vou ter que perguntar antes do encontro se ele tem uma arma", comenta um amigo. Eu respondo que acho que sim, claro.

E, pensando nisso, no Grindr, no Tinder, OK Cupid e outros sites de encontros já deveriam, nessa nova era brasileira, constar a pergunta: "Você tem uma arma?". Parece bizarro, eu sei, mas, infelizmente, estou falando sobre a realidade.

Na sua casa ou na minha?

Na história dos romances contemporâneos em geral, você conhece alguém, sai com a pessoa algumas vezes (ou rola na primeira vez mesmo) e acontece a pergunta: "Na sua casa ou na minha?". Nos novos tempos, as meninas (ou os caras) talvez acrescentem a essa pergunta: "Espera, você tem arma?". Sim, é surreal. É muito Black Mirror. Mas é a realidade, repito.

Você sairia com um cara armado? Sim, porque ainda tem essa: a lei diz que a maioria dos cidadãos brasileiros pode ter até quatro armas. A pessoa não pode andar por aí com a arma na bolsa, no carro. Mas, bem, muita gente não para nem no sinal vermelho, certo? Não é difícil imaginar que vai ter gente que vai, sim, levar a arma para passear. Você entraria no carro de um cara que tem uma?

Eu, sabendo, não entraria. E nem estou falando da possibilidade do cara ser estuprador (que existe). Mas imagina se o cara briga com alguém no trânsito, se vocês são assaltados (sim, acontece e já aconteceu comigo, já estive com uma arma na cabeça) e ele e o bandido começam a atirar e você fica no meio da linha de tiro? Eu, que me salvei do meu assalto com arma na cabeça porque mantive a calma, JAMAIS me exporia a esse risco.

E você?

Amigas mães, sim, vocês vão ter que perguntar para a filha ou filho que começa um romance se a pessoa tem arma. É surreal. Mas, infelizmente, não é ficçção. Mas realidade, mesmo. "E aí, o que você faz da vida? E aí, você tem arma?"

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.