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Nina Lemos

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Piovani e muitas mães são julgadas quando namoram. Por que só com mulheres?

Nina Lemos

2026-06-20T19:04:00

26/06/2019 04h00

Foto: Divulgação

Uma mulher se separa. No acordo entre o casal, ela vai cuidar dos filhos na maior parte do tempo. O pai arruma uma namorada. Beleza. Um tempo depois, a mulher também passa a ter um novo namorado ou um ficante. Qual a relação do pai e da sociedade em muitos casos, nesse tipo de situação? "Mas que louca!", "Quem ela está botando em casa?", "Ela não pensa nos filhos?".

Não estou falando que isso é regra, mas é muito comum. Tem casais que se separam, continuam amigos, ou que, no mínimo, existe compreensão. Mas, muitas vezes, (infelizmente) não é assim. E a mãe ainda é julgada por (nossa!) ter uma vida.

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Pensei nisso conversando com uma amiga, mãe e separada, depois de ler as recentes fofocas envolvendo Luana Piovani e Pedro Scooby. Eles se separaram, Pedro namora Anitta. Tudo bem. Mas o que fazem? Começam a arrumar namorados para Luana (nenhum confirmado por ela, que afirmou estar solteira) e a cobrarem: "Como assim?", Colocou um homem em casa?", "Está se divertindo?".

E se tivesse um novo namorado que dormisse na casa dela: qual o problema? Uma mãe não tem capacidade de fazer isso de forma consciente? Ela tem que ficar infeliz, só cuidando das crianças, enquanto o pai aproveita a vida?

Pelo contrário: e precisamos deixar claro é que uma mulher pode (e deve) ser divertir e ter uma vida depois de ser mãe, certo? Mulheres separadas e mães não precisam fazer um pacto de celibato. E, se elas conseguem cuidar dos filhos, devem ser capazes de escolher um parceiro que seja bacana com eles, não?

Outro homem em casa? Nunca!

Conversando com mães  separadas, vi que essa cobrança de celibato (principalmente pelos  pais dos filhos) não é rara. Em alguns casos, a mulher cuida do filho 99% do tempo. O pai só vê as crianças em finais de semana alternados. Quando a moça arruma um namorado, o cara surta. "Você vai colocar um homem perto dos meus filhos?"  

Claro que o ciúme é natural. Mas vamos ser racionais: será que uma mãe que tem a responsabilidade sobre 99% do que o filho faz e que cuida dele não teria responsabilidade na hora de pensar em colocar um cara em casa de forma responsável? Provavelmente, sim, não?  E se o ex não confia nessa capacidade de julgamento da mãe dos filhos, não deveria deixar a mulher ser responsável pela maior parte da educação da criança, oras!

O caso aconteceu com a designer Marina (nome fictício). "Estou separada há sete anos. Arrumei um namorado quatro anos depois da separação. Meu ex, que nem via o filho direito e não pagava pensão, ficou um mês sem falar comigo. Depois, passou a me mandar mensagens preocupado com meu filho, porque ele estava convivendo com outro homem. Disse que tinha lido tudo sobre o cara no Facebook, ficou fazendo uma investigação e me cobrando. O que me pergunto: por que ele não havia se preocupado antes?"

Ana (nome fictício), também separada, está solteira, mas, mesmo assim, enfrenta problemas semelhantes com o pai do filho. "Ele está com a pensão atrasada, não liga para o meu filho. Mas outro dia pedi para que ele ficasse com ele uma vez por semana, disse que o menino sentia falta dele, o que é verdade". A resposta que Ana recebeu: "Ele disse que eu só pensava em mim, que queria me divertir. Deixando claro que, se eu queria tempo, deveria ser porque estava saindo com alguém." Bem, e se Ana quisesse se divertir? Ela não pode?

Com Lidiane da Silva foi um pouco pior. "O pai de um dos meus filhos me abandonou grávida e, depois de uns anos, mudou de país. Agora, tenho um namorado legal que, inclusive, virou uma figura importante na vida do meu filho. O que ele fez? Me mandou uma mensagem falando que não queria outro homem perto do filho, que ele ia voltar um dia só para provar que o pai era ele." Sim. Isso aconteceu.

Atenção. Eu não estou falando que todos os casos são assim! Há casais que se separam, continuam amigos. E existe, também, muita mulher que não aceita que o pai tenha uma boa relação com o filho e uma nova namorada ao mesmo tempo, por exemplo. Mas, em muitos casos, as mulheres se ferram quando, depois de separadas e com filhos, decidem ter uma vida. Ainda. Por isso, é importante repetir: ser mãe não é pacto de celibato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.