Nina Lemos

Categorias

Histórico

Só a orkutização pode salvar as redes sociais (e a vida)

Nina Lemos

20/07/2018 04h00

 

“Sabia que tem um grupo super engraçado no Facebook chamado ‘Eu amo a frança porque lá qualquer coisa eles queimam carro?’”. Minha amiga Jô completou na hora: “o Facebook orkutizou”. E não demoramos para concluir que só a “orkutização” pode salvar o Facebook. E também a vida.

“Orkutização” é um termo criado lá no meio dos anos 2000, talvez um dos verbos mais bizarros já inventados no Brasil. Orkut, vocês lembram, era aquela rede social que existia antes de todas. A que tinha uma telinha azul, a gente escrevia nossas preferências e, o mais legal, criava comunidades e deixava depoimentos para amigos, falando coisas legais sobre eles (ao invés de mandar indiretas). Existiam comunidades incíiveis, como “abro a geladeira para pensar”, “odeio autoestima”, “traumas de infância” e outras coisas totalmente aleatórias.

O termo orkutização surgiu quando pessoas “normais”, “não especiais” como os primeiros usuários, ou seja, nossas mães e avós, começaram a usar a rede. Orkutizar significava que deixou de ser cool. Foi dominada pelo povão, que passou a postar emoticons e muitas fotos de biquíni na praia.

Quanto preconceito existe nesse termo, heim?

Chega de “Facebookizar!”

O Orkut “orkutizou” tanto que acabou em 2014. E aqui estamos nós, no Facebook, só lendo coisas que aparecem na nossa timeline baseadas em likes que damos (e em outros mecanismos obscuros de algorítimo) e tendo a sensação de que andamos em círculos. No Facebook, temos muitos amigos, mas só vemos o perfil de poucos deles. Por isso, temos a sensação de que todos falam sobre a mesma coisa. Chamamos isso de bolha. Nessa bolha, somos muito “sofisticados”, fazemos análises “seríssimas” sobre geopolítica e esportes. E reclamamos das pessoas que fazem análises sobre geopolítica e esportes. E também de quem reclama de quem reclama das análises. Ou seja, nós “facebookizamos”.

Facebookear é quando você sai “problematizando” tudo que vê pela frente. Tudo vira motivo de treta. Exemplo. Esse texto será “facebookizado” se vocês começarem a falar: “que absurdo você curtir a comunidade ‘Eu amo os franceses porque qualquer coisa eles vão lá e queimam carros’.” “Que irresponsabilidade, você está apoiando o vandalismo, por isso que esse país não vai para frente etc.” Ou seja, eu, que tinha curtido um post só porque achei engraçado, estarei imersa em uma polêmica que vai durar séculos. E, muitas vezes, levamos isso para a vida, perdemos amigos. Uma tristeza.

No Orkut não tinha like!

Quando a gente faz parte de uma polêmica, talvez a gente ganhe likes. Cada like recebido, já alertaram os cientistas, desperta um mecanismo em nosso cérebro que causa excitação. Ficamos dependentes. Nos sentimos recompensados. E assim vivemos, dando e recebendo likes, causando polêmica e brigando. Mesmo quando nos fazemos de superiores, nós, adultos, queremos, sim, likes. Claro que eu vou ficar feliz se esse texto tiver muitos likes e triste se tiver só uns dois. Vivemos nessa ansiedade.

Pois, crianças, acreditem, no Orkut não tinha like. E só isso já diminuiu boa parte do sofrimento. Você tinha, no máximo, fãs, e pessoas que colocavam coraçõezinhos e pedras preciosas no seu perfil para mostrar que você era sexy e valiosa. Quanta fofura!

A vida anda dura com essas crise. Ainda teremos eleições. Como vamos sobreviver? Uma saída, na minha opinião, é “orkutizar” geral. Bora mandar mais mensagens de amor para os amigos?

Vamos parar de brigar e voltar a criar comunidades idiotas, digo eu, que com uma amiga fui criadora das comunidade “jornalista é cafona” e a “JCMEP” (jornalistas com medo de entrevistar pessoas). Vamos tentar viver sem espera por likes (será que a gente consegue?).

Talvez um tempo criando comunidades engraçadas e postando fotos de biquíni (e indo mais para a praia na vida real) faça bem para todos nós. A gente merece.

#SaudadesOrkut

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está fechada

Não é possivel enviar comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

O UOL está testando novas regras para os comentários. O objetivo é estimular um debate saudável e de alto nível, estritamente relacionado ao conteúdo da página. Só serão aprovadas as mensagens que atenderem a este objetivo. Ao comentar você concorda com os termos de uso. O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Nina Lemos
Topo