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Nina Lemos

Vai, malandra? O tiro errado de Anitta ao escolher abusador para seu clipe

Nina Lemos

19/12/2017 15h04

Terry Richardson nos bastidores da gravação do clipe com Anitta (Foto: Reprodução/Instagram)

Quando vi o clipe da Anitta, "Vai Malandra", a primeira coisa que pensei foi: "Olha aí, a menina dando outro tiro certo!".

Esteticamente o clipe é bonito, tem pegada e muitas sacadas boas. A ideia de mostrar a laje que ficou famosa por oferecer marquinhas perfeitas feitas com fita isolante, uma daquelas coisas que a gente pensa "só mesmo no Brasil", é ótima! O clipe exibe, com fotografia linda, uma favela glamorizada? Sim. Mas que não deixa de ser real. E Anitta, menina crescida na periferia carioca, tem total propriedade para mostrar isso. Ela não é uma gringa na favela. Ela é de lá. E é do funk. Ela pode.

Outro tiro certo: a bunda com celulite e estria, da própria Anitta, mostrada logo no inicio. Sem maquiagens. Arrasou.

Tudo ótimo. Até sabermos o nome do responsável pelo clipe: Terry Richardson. Ei, espera aí, Terry Richardson? Mas como assim, Anitta?

Terry nunca mais

Richardson é um velho conhecido de quem acompanha moda desde os anos 1990. Ele foi um dos responsáveis pelo boom da estética "heroin chic" (que exaltava a beleza de modelos que pareciam viciadas em heroína), que teve como ícone Kate Moss. Ele era um pop star da fotografia. Poderoso.

Até que, em 2014, a casa do cara caiu. Depois do depoimento de uma modelo denunciando abuso sexual por parte dele, outros relatos vieram em cascata. Sim, a mesma coisa que aconteceu com o produtor Harvey Weinstein, aquele nojento que abusou de atrizes como Angelina Jolie e Salma Hayek (os relatos da atriz são de dar tontura).

Não é o caso de a gente comparar quem é o abusador mais cruel. Basta lembrar que Terry Richardson também recebeu várias denúncias. A coisa foi tão séria que, em 2014, modelos lançaram uma campanha com a tag #NOMORETERRY (Terry nunca mais).

Por alguns anos, o mundo da moda fez uma coisa que sabe fazer bem: "a egípcia" (virar o rosto e fingir que não é com ele) e Terry continuou trabalhando. Esse ano, depois do escândalo  Harvey Weinstein e da campanha #MeToo, alguns decidiram deixar de ignorar as denúncias. Em outubro, ele passou a ser persona non grata em todas as revistas da Conde Nast (a editora poderosa responsável, entre outras, pela Vogue) e pela grife Valentino.

Cadê as poderosas?

A notícia de que "Finalmente o mundo da moda caiu em si" foi recebida com alegria.

Dois meses depois, a maior pop star brasileira do momento, dá uma dessa? Como assim? Annita, o clipe é legal e você é poderosa. Mas sinceramente, você podia (e devia) ter passado sem essa.

Trabalhar com homem acusado de abuso? Não! Além de não ser legal, pega mal para quem está lançando carreira internacional justamente colada na ideia de "poder feminino". E agora, ainda bem, o mundo está de olho. E não, abusadores não passarão.

#nomoreterry

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.