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Mario Gomes vendendo sanduíche e o mito do "dar certo na vida"

Nina Lemos

05/02/2018 04h00

Foto: Marcelo de Jesus/UOL

Há um ano, um "escândalo" tomou conta do noticiário de celebridades. O ator Mario Gomes foi "flagrado" vendendo sanduiche em uma barraca na praia do Rio de Janeiro. Atenção, o verbo flagrado é o mesmo usado para pessoas que são vistas escondendo dólar na cueca.

Mario Gomes não roubou. Não se aproveitou de benesse alguma que pudesse ser considerada eticamente suspeita. Ele resolveu trabalhar em algo "comum". Ele cometeu o crime de levar a vida. Escândalo!

O assunto Mario Gomes reapareceu com tudo essa semana porque o ator voltará a fazer novela. Ele integra o elenco de "Tempo de Amar, da Globo. Para choque geral, ele disse que não pretende parar de vender sanduiche. O negócio vai bem. Por que pararia?

Mario não é a primeira nem a última celebridade a sofrer da "patrulha do emprego." A lista é grande e inclui, por exemplo, Regininha Poltergeist e, claro, Narjara Turetta.

A atriz, que ficou famosa há mais de 30 anos, vez ou outra volta ao noticiário por ter sido "flagrada" fazendo alguma coisa horrorosa, tipo trabalhar.

Ela causou escândalo ao ser vista vendendo coco na praia, trabalho que exerceu por quatro anos. Essa história nunca desgrudou dela. Ano passado, ao voltar para a Globo, Narjara desabafou."Me enchem o saco com essa coisa de água de coco. Mas dava para pagar as contas em dia. O Mario Gomes dia desses estava vendendo sanduíche na praia? Qual o problema?

Sim, meu deus, qual o problema?

E se nada der certo?

O problema, arrisco uma tese, é que muitas vezes ainda julgamos as pessoas pelo trabalho que elas fazem (como se ter um trabalho honesto não bastasse) e dividimos o mundo entre o paraíso do glamour e dos bem sucedidos (onde se encaixam artistas, medicos, publicitários, ou qualquer pessoa com dinheiro para ir à Disney todo ano) e o resto, os comuns, a gentalha. Lugar esse, onde, diga-se de passagem, a maioria de nós vive.

Uma amiga me lembra que ano passado estudantes de uma escola particular do interior do Rio Grande do Sul organizaram uma festa chamada "Se nada der certo", onde foram vestidos de vendedores do McDonald's, de lixeiros e de outras profissões honestas, mas que eles julgam "inferiores".

Sim, eles fizeram piada com a profissão de milhares de pessoas. E que conceito é esse, de "dar certo na vida?

De longe, o absurdo fica mais claro. Na Alemanha, onde moro, conheço fisioterapeuta que se divide entre a fisioterapia e o trabalho de vendedora em uma loja de colchão, professor de alemão que também é telefonista e lixeiro é um trabalho mais bem pago e mais estável do que ser jornalista. As pessoas não acham que um carteiro, por exemplo, deu errado. E, claro, não deu. Em lugar algum do mundo.

Dar errado, me desculpem, é rir do Mario Gomes e das Narjaras Turetas da vida e maltratar garçom porque é doutor, ou comentar pelas costas que uma amiga está na pior e teve que aceitar um emprego Y ( e nesses tempos de crise isso acontece com tantos, mas tantos!).

E, o que é pior, para esse "dar errado na vida" não vejo conserto. Acho que não há emprego incrível com salário de 50 mil "temeres" mais todo o kit vip glamour que vá fazer com que a pessoa "tenha dado certo." Me desculpem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.