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Nina Lemos

Stories do Instagram: igual ao BBB, mas sem prêmio milionário

Nina Lemos

07/02/2018 04h00

São dez horas da manhã. Na tela, uma menina come uma goiaba e exibe o quanto ela (a fruta ou a própria) é bonita. Um grupo continua na balada e dança como se não houvesse amanhã. Em um quarto, no escuro, um famoso engraçado que já participou de reality show antes conta como se sente, o que gosta de comer, como foi a noite, uma loucura.

Não estou assistindo paper view do BBB. Apenas estou olhando o meu "Stories", a "parte" do Instagram onde as pessoas que sigo exibem fotos, pequenos videos, uma animação só. Ali as pessoas recebem muitos mimos e fazem videos de recebidos, comem saudavelmente, dançam. Ali é um pay per view de BBB da vida de qualquer um. Existem algumas diferenças. Não precisamos pagar o PPV para assistir essas vidas.

Quem participa não passa por uma rigorosa seleção, não precisa fazer os testes para ser aceito no BBB, que, dizem, beira a tortura psicológica. Outra diferença é que no stories tambem não vamos ganhar um prêmio de um milhão, ou um carro, algo do tipo.

.Alguns ganham dinheiro fazendo publieditorial ou vendendo um estilo de vida. Mas a maioria de nós se expoem ali porque quer (ou se sente obrigado para validar sua vida). Enquanto isso, nós, espectadores, mudamos de stories para stories como uma edição do BBB muda de cômodo. E não conseguimos parar de ver. Antes de dormir, ainda damos uma "espiadinha." E, claro, ao mesmo tempo falamos mal de quem assiste BBB e ainda mais dos participantes, que só querem aparecer. Ah, ta! Como se a gente fosse diferente.

As redes sociais são uma droga

O potencial viciante do Intagram e do Facebook deixam a TV, vista no passado como um aparelho perigoso para crianças, parecendo uma bobinha inocente.

Você não precisa mudar de canal, você vai apenas tocando a tela. Em casa,no trem,no banheiro. Não por acaso, os números são impressionantes. 300 milhões de pessoas usam Instagram Stories todos os dias. Uma pesquisa feita com os usuários do aplicativo mostra que

o Stories (incorporado ao Instagram em 2016) aumentou o tempo em que os usuários passam olhando para as fotos e videos para uma média de 28 minutos por dia. Ou seja, o tempo de um programa de TV.

Junto, claro, aumentaram um monte de sentimentos em nós: inveja, raiva, frustração, síndrome de "sou um perdedor, Socorro, só minha vida não é incrível".Não sou em que digo. São estudos que mostram que o Instagram é a rede social mais perigosa para a saúde mental das pessoas.

Sou uma pessoa com propensão alta a vicios. Já fui viciada (sem orgulho) em novela e em BBB. Hoje, penso que seria melhor voltar a assistir BBB do que ficar mudando de um amigo para outro vendo vidas que parecem incríveis e me sentindo fracassada.

O sucesso do Stories como negócio (a maioria da publicidade do Instagram é feita ali) mostra que a síndrome de reality show piora a cada dia. Outro dia levei um susto ao ver um conhecido mostrando um hotel onde estava hospedado:"temos aqui uma arquitetura do seculo 19", ele dizia, lembrando a minha infância, quando uma das minhas brincadeiras prediletas era brincar de "Gloria Maria." Cada um brinca do que quer, claro. E assistimos porque queremos.

Mas será? Você já tentou desligar esse troço? É preciso auto-controle. E, nesse caso, se você não quer ver a vida dos seus amigos e seus famosos preferidos transformada em reality, vale aquela velha propaganda da MTV: desligue a TV, vá ler um livro. No caso, desligue o celular. Se puder…E não ligue para dar "espiadinha" no meio da madrugada.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.