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Nina Lemos

Nina Lemos

O "concurso" do menor tapa sexo. Mulheres competindo, até quando?

Nina Lemos

12/02/2018 11h09

 

 

"Sem Dani Sperle no páreo, musa carioca promete o menor tapa sexo do Carnaval." Essa noticia foi publicada aqui mesmo no UOL. De longe, eu observava e pensava: que tipo de competição é essa?

A musa em questão era Andrea Martins, da Renascer de Jacarepaguá. Objetivo proposto: ganhar o prêmio não oficial de menor tapa sexo usado no Carnaval. A competição, segundo ela, ficou mais fácil porque Dani Sperle, uma das mulheres conhecidas como musa do tapa sexo, não desfilou esse ano. A competição é grande, já que existem várias "musas do tapa sexo" (um micro pedaço de pano colado na região pubiana com uma cola tipo Super Bonder, que demora horas para sair). Ai.

Todo Carnaval, podem reparar (e não só nos dias de folia, sabemos disso) inventam uma nova competição para nós, mulheres. Um dos mitos que nos perseguem é o de que adoramos competir com outras. Será? Discordo, acho mais que gente gosta de competir com gente.

O que acontece é que as competições femininas são "um negócio", quase uma indústria que gira fama e dinheiro. Carnaval é trabalho duro. No caso de quem faz parte do negócio, não é brincadeira não!

E, se ganha alguma coisa com isso?

Sim, claro. No caso das musas, quem vence a competição não oficial pode receber convites para presenças vips em evento, ensaios fotográficos e depois ser convidada para integrar um reality show, com fama e cachê gordo. Quem não precisa de dinheiro? Quem não quer ser reconhecido, seja por que for?

O negócio da "competição corporal" entre mulheres é antigo, só muda de nome. Já tivemos todas as sortes de competições, desde os hoje ingênuos concursos de Miss até o Miss Bumbum e centenas não oficiais, como o pelo título da barriga mais negativa, do abdomen trincado etc etc etc.

Tiazinha ou Paulinho?

Nada disso é novidade, repito. Há milhares de anos, participei da cobertura dos desfiles da Marquês de Sapucai para a Folha de S.Paulo. Era minha primeira vez ali e eu estava deslumbrada, passada, chorando, basicamente surtando de emoção com a bateria, as velhas guardas, tudo.

Nesse Carnaval, a musa era a Tiazinha (lembram?). Pois então, ninguém ligava para o Paulinho da Viola que estava ali bem perto (Socorro, que emoção!!!!). A geral só queria mesmo saber da Tiazinha. Na TV, o close dela duraria minutos a mais que o Paulinho da Viola, que desfilava tranquilo enquanto Tiazinha mal conseguia andar por causa da quantidade de fotógrafos.

De lá para cá, o que mudou? Por mais que feminismo seja a palavra do ano, pouco.

As tiazinhas só vão mudando de nome e de rosto. Aparecem. São descartadas. Chega outra "musa" de "alguma coisa"e assim segue.

Cada uma faz o que quer? Sim. Meus corpos minhas regras? Sim. Mas é chato quando essas regras, além de seguirem um padrão de mercado,  ainda fazem as mulheres competir uma com as outras.

Ser musa não é nada fácil. É um trabalho duro (sem ironia). Além de preparar o corpo por meses, sambar, posar, elas ainda têm que lidar com imprevistos e provar que são"guerreiras".

O tapa-sexo, apesar da "super bonder", às vezes cai. E a moça vai ter que continuar sambando com a mão "ali" para esconder a piriquita. Aconteceu com Tarine Lopes, musa da X9.

Mulher passa por cada uma, viu? E se um dia isso vai mudar? Tenho 47 anos de Carnaval, as vezes acho que não, mas jogo essa ideia: menos competição. Já seria um começo…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.