Nina Lemos

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A tendência de jogar riqueza na nossa cara: o "tour pelo closet"

Nina Lemos

14/03/2018 04h00

Sim, existe um programa dedicado a mostrar os closets das milionárias. Crédito: reprodução

Quando Val Marchiori apareceu, no meio dos anos 2000, parecia que tínhamos atingido o auge da maluquice de ostentação. Logo depois veio o divertido programas “Mulheres Ricas”, onde ríamos dos desvarios de quem ostentava. Tolinhos. Mal sabíamos que aquilo era apenas o início. Logo viria Instagram, Youtube. E, com eles, mais e mais exbição de riqueza. Quer saber o que é ostentação pesada? É só dar uma olhada nas fotos e videos de “closets” espalhados por essa internet mundão de deus.

Você não leu errado. Trata-se, literalmente, de abrir o armário e mostrar para os outros o que possui, uma febre entre ricas e famosas. Praticamente todas as semanas uma celebridade/milionária decide exibir seu closet. Nós, que já nascemos pobres, olhamos aquilo em choque.

Posar em um closet lotado de peças de grife não é diferente de posar em um cofre cheio de moedas de ouro, tipo aquele em que o Tio Patinhas mergulhava.

A Tio patinhas da semana é Kylie Jenner, uma das filhas da mais famosa familia de ostentadores dos Estados Unidos: as Kadashians.

Kylie, a caçula do clã, resolveu rir da cara da sociedade essa semana ao postar uma foto de “um dos seus closets”, no caso, um dedicado só a bolsas. Como rir da cara dos outros parece pouco, ela resolveu gargalhar e escreveu: “opções”.

As opções, no caso, juntavam mais de 1 milhão de dólares em bolsas que custam até 70 mil euros.

A pose dela, abusada, parece gritar: “eu posso, eu mereço, eu tenho, sou rainha.”

Semana passada foi a vez da milionária de Singapura Jamie Chua mostrar um closet do tamanho de uma mansão. A socialite mostrou sua “casa de roupas” em uma série da Internet chamada “Bonkers Closets”.

Seu vídeo viralizou no mundo inteiro. O programa, dedicado só a mostrar closet de milionárias, exibe o preço absurdo de cada peça bem grande, deixando claro que o que interessa ali não é exatamente os modelos, mas a ostentação da riqueza mesmo. Ela exibe, por exemplo, um tênis Balenciaga de mais de 2 mil dolares e diz: “Não gosto mais dele, eu fico muito baixinha quando uso.”

Ostentação sustentável?

A tendência de “abrir o armário” (no sentido mais banal do termo) é tão grande que existem quadros de TV em todo mundo com o tema. E se você digitar “tour no meu closet” vai ver toda a variedade de meninas, famosas, ricas, classe média, exibindo viagens em torno de seus armários.

No Brasil, existe o programa “Desengaveta”, do GNT, que vai para a terceira temporada. Ali, famosos mostram o closet e têm que escolher peças para doar. Por que, claro, para estar na moda é peciso também ser sustentável e solidário.

No “Hoje em Dia”, da Record, existe um quadro semelhante: famosas, como Carolina Magalhães, mostram seus closets “com exclusividade” (nossa!) e também tem que escolher uma peça para doar.

Eles tentam, assim, juntar duas tendências completamente diferentes: a da ostentação, que nunca saiu de moda, e a do desapego, de uma vida sustentável. Juntar as duas coisas não parece possível. Ou você ostenta ou você é sustentável, certo?

Se a pessoa tem dinehiro, ela pode comprar a quantidade louca de roupas que ela quer? Sem dúvida. A pergunta é: por que mostrar? E por que assistimos? Poi,s claro, se ninguém visse, a tendência de “abrir o armário” nem existiria.

O que leva alguém a exibir seus bens de consumo? A abrir a casa para mostrar milhares de roupas de grife que ela nem usa e falar o preço? Causar inveja? Raiva?

Pelo jeito, querem lacrar, mostrar que podem tudo, porque são RICAS! São as rainhas do camarote. Querem fechar, arrasar. E conseguem.

Era de se esperar que quem ostenta fosse atacado, certo? Mas, não, elas viram mais “fechadoras” ainda. “Deusa”, “diva”,”você tem o que toda garota no mundo devia ter”, dizem as fâs de Kylie Jenner nos comentários da foto em que ela exibe seu patrimônio de bolsas.

Pelo jeito, o tempo passa, mas a vontade de brincar de Barbie, não, “Um dia essa cafonice vai ter que acabar”, diz minha amiga Jô. Pelo jeito, vai demorar. Isso se o mundo não acabar antes, soterrado em roupas inúteis, tênis Balenciaga e bolsas Hermés.Q

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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