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Nina Lemos

Repórter é "acusada" de fazer sucesso por ter caso com diretor. Até quando?

Nina Lemos

12/04/2018 04h00

Esse tipo de papo, a essa altura? (Foto: iStock)

"Se você recebeu uma promoção no trabalho, é porque está tendo um caso com o chefe". Quem é mulher sabe que, seja qual for a área, esse é um dos mitos do machismo que nos persegue. A "acusada" da hora é uma repórter da TV Globo. Um colunista de TV sugeriu em seu blog que a jornalista estaria conseguindo emplacar muitas pautas no Jornal Nacional por ter um caso com um diretor da emissora. Esse tipo de papo, a essa altura? Sério?

O machismo já começa pelo título: "Ascensão de repórter novata causa estranheza na Globo". Como assim? Uma mulher não pode ter sucesso por ser, digamos, talentosa? Ou talento é coisa exclusiva dos homens? E continua: "Nenhum repórter da Globo de São Paulo apareceu mais no Jornal Nacional nos últimos dias do que (Universa decidiu não publicar o nome dela). A jornalista, que tem apenas cinco anos de casa, teve mais entradas no telejornal do que veteranos como Roberto Kovalick , José Roberto Burnier e César Menezes. As redes sociais revelam que (a repórter) tem um bom relacionamento com seus chefes, e isso tem alimentado especulações nos bastidores da emissora. Coordenador de coberturas especiais, (Universa também não vai publicar o nome dele), terceiro homem na hierarquia do Jornalismo da Globo, sempre curte seus posts no Instagram."

A vida amorosa-sexual de uma jornalista (ou de qualquer outra pessoa) não é assunto nosso. Uma coisa é com quem a pessoa dorme. Outra, é sua atuação profissional. E se ela estiver namorando o chefe? Qual o problema? A gente namora quem a gente quer. A questão é: nossas conquistas profissionais sempre são colocadas sob suspeita. Se conseguimos, é porque "somos amantes do chefe."

Espalhar isso em pleno 2018, quando movimentos do mundo todo , como o "Me too" e o brasileiro "Jornalistas contra o Assédio" lutam pela igualdade das mulheres nos ambientes de trabalho? Sério?

Quando ouvimos uma fofoca dessas, pensamos: "ei, em que mundo vocês vivem?" "Vocês ainda não entenderam nada?" E será que o mesmo rumor aconteceria se a repórter fosse homem? Nesse caso, provavelmente, ela seria considerada apenas uma pessoa com talento precoce…

E o talento, não conta?

Não é a primeira nem a última vez que mulheres são "acusadas" de fazer sucesso por terem romances com alguém.

Atrizes como Maitê Proença e Flávia Alessandra só para citar alguns exemplo, tiveram que ouvir a vida toda que começaram na TV por terem sido casadas com diretores. Talento, carisma e esforço parecem nunca ter entrado na conta.

No jornalismo, esse tipo de "acusação" se repete. Em 2016, aqui no Brasil, uma jornalista foi "acusada" de namorar um ministro. O caso foi noticiado como escândalo (por que, gente?). E quem a "denunciou" ainda teve o desplante de dizer que ela não era uma boa profissional, e que só tinha conseguido um trabalho como assessora de imprensa do tal ministério por causa do companheiro. A jornalista, que trabalhava numa importante revista semanal, tinha dado um furo (jargão jornalístico, que significa dar uma reportagem antes de todo mundo) em 2016, ao publicar a delação premiada do então senador Delcídio do Amaral (PT). O que disseram? Ela conseguiu por causa do companheiro, claro.

Até a talentosíssima (e ícone nacional) Maju, a Maria Julia Coutinho, apresentadora do tempo do Jornal Nacional, já teve que lidar com esse tipo de preconceito. E, no caso, mentira. Foi só ela começar a fazer sucesso para que se espalhassem boatos de que ela teria um caso com William Bonner. Não era verdade. Mas, de novo, perguntamos: "e se fosse?" Todo o carisma e talento de Maju não seriam nada?

Engraçado (e triste) perceber que esse tipo de situação ainda é tão comum com as mulheres. Que homem é acusado de fazer sucesso "por ter um caso com alguém"?. E não, não desejamos isso! Nesse tipo de situação, não queremos igualdade! Nem homem nem mulher merece passar por isso.

Repetimos: estamos em 2018. E sabemos que esse tipo de boato acontece em todas as profissões (ainda). Provavelmente existe muita médica dedicada sendo acusada de pegar bons casos por ser "amante do diretor do hospital", acadêmicas ganhando boas notas porque "deram para o professor". É desanimador.

Mas que sirva para a gente dizer 'não' com força para esse tipo de acusação. E, uma dica: não faça isso com a sua colega, a respeite, seja você da área que for. Pode ser um jeito das coisas começarem a mudar…

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.