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Nina Lemos

Karl Lagerfeld e a tendência do ódio e do preconceito na moda

Nina Lemos

18/04/2018 04h00

"As modelos são o proletariado da moda". Lembrei da frase do amigo Alcino Leite Neto, então editor de moda da Folha de S.Paulo, ao ler as últimas declarações de Karl Lagerfeld, o todo poderoso da Chanel.

Karl é tão importante nesse mundo que é chamado de Kaiser (Imperador, em alemão). Se as modelos são as proletárias, ele é o rei absolutista.

Apesar de muito bom no que faz, Karl é um imperador que profere regras e preconceitos e representa tudo de velho (não no sentido da idade, mas das ideias) que ainda permeia o mundo da moda. Sei do que estou falando, o habitei, e continuo a amar moda.

Karl, que já demonstrou, entre outras coisas, ser gordofóbico (quando chamou a cantora Adele de "gorda demais"), dessa vez disse o seguinte para a revista Numéro: ""Li em algum lugar que agora você precisa perguntar a uma modelo se ela se sente confortável ao posar. É demais. Você não pode fazer mais nada".

E foi mais longe: Uma moça reclamou que Karl Templar (diretor da revista Interview) tentou abaixar sua calça, mas ele achou que não era motivo de revolta e disse: "Se você não quer que suas calças sejam abaixadas, não seja uma modelo. Entre para um convento."

Isso mesmo, ele disse que uma modelo reclamar de um homem mexer na calça dela é frescura. Como se modelo não fosse gente e não merecesse respeito.

Dentro do mundo da moda, todo mundo sabe de histórias de estilistas que fazem modelos chorarem. Não são todos, claro. Mas as histórias dos que chamam modelo de gorda, gritam que são retardadas e mais correm pelas fileiras.

Karl, que acha frescura uma modelo reclamar de assédio, com certeza faz parte desse time.

Ele se posicionou fortemente contra os movimentos "#MeToo" e "Times Up", criados por atrizes depois do escândalo das denúncias de assédio contra o produtor Harvey Weinstein e que chegou, também, ao mundo da moda. As denúncias de assédio na indústria da moda já existem faz tempo, mas eram jogadas em baixo do tapete. Esse ano, elas vieram à tona e fizeram com que a editora Conde Nést banisse o fotógrafo Terry Richardson de suas revistas, que incluem títulos como a Vogue.

Sobrou também para os modelos homens.

"Desenhar uma coleção masculina para aguentar todos esses modelos imbecis? Não, obrigado. Sem mencionar que agora, com as suas acusações de assédio, eles se tornaram tóxicos. Não, não, não me deixe sozinho com essas criaturas sórdidas." Como se os rapazes não estivessem fazendo um trabalho e estivessem ali só tentando dar o bote.

Atenção, histórias de assédio a modelos homens também são comuns. E como parece que já aprendemos, a vítima precisa ser ouvida.

Vai cair o Rei!

Nos últimos anos, o mundo da moda também foi positivamente contaminado pelas mudanças que muitos chamam de "correção política chata", mas que, na real, tem a ver com respeito.

Mesmo que em número ainda não seja suficiente, modelos gordas aparecem em capas de revistas e desfiles, muitos atentaram para a problemática do racismo e do padrão — magérrimo, loiro e irreal — nas passarelas.

Pensar o assédio no meio é apenas parte dos novos tempos. A ficha de que as coisas mudam (algumas vezes para melhor) parece não cair para Karl, que pelo jeito vai continuar destilando suas sandices. Esperamos que seus súditos não obedeçam.

Mas não deixa de ser chocante ver alguém tão influente ainda fazer esse tipo de discurso. Tomara que essa tendência retrograda não volte. Revival é bom. Mas só quando o assunto é coleção de moda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.