Nina Lemos

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Mulheres deixam de usar sutiã e lidam com fofocas, olhares e até polícia

Nina Lemos

07/05/2018 04h00

O jornalista Helcio Beuclair, ativista da ONG Arouchianas, saía do trabalho na semana passada, no centro de São Paulo, quando percebeu uma discussão entre uma travesti e um policial. “Ele falava para ela sair dali porque estava sem sutiã na frente de uma escola, e que isso era crime de atentado ao pudor.” Helcio começou a filmar. No vídeo, a travesti, que Helcio não sabe o nome, está de camiseta e minissaia.

Não usar sutiã não é atentado ao pudor. E não, não existe uma lei que obrigue mulheres a usarem sutiã. Peito balançando não é crime. Mamilos “marcados” também não.

“Postei e viralizou. Fiquei contente com a repercussão porque isso mostra que as pessoas não aceitam esse moralismo que pode atingir todas as mulheres”, disse Helcio à Universa.

Para uma mulher hétero, é mais improvável ser abordada por um policial reclamando do fato de não usar sutiã? Provavelmente. Mas a maioria que não usa já passou por constrangimento na rua, no trabalho, na escola.

Queimar os sutiãs

Estamos em 2018, vamos lembrar. Feminismo foi escolhida a palavra do ano. E “queimar os sutiãs” foi um dos principais símbolos da revolução feminista da década de 1960. A obrigação de usar a peça era vista como um símbolo da opressão a que mulheres eram submetidas.

Será que vamos ter que queimar os sutiãs novamente em 2018?

É possível. Mais e mais mulheres abrem mão da peça por sentirem que essa é mais uma obrigação de “se adequar” e também por simples conforto. E a reação contrária vem. E pode ser violenta.

Na primeira semana de abril, a estudante Americana Lizzy Martinez foi obrigada pela diretora da escola onde estuda, na Flórida, a colar band-aids nos mamilos por star sem sutiã. Argumento da professora: ela estaria “distraindo os colegas.”

No fim de março, foi a vez da cantora Luiza Sonza sair sem sutiã na rua e se sentir repreendida por uma passante. “Fui olhada com ar de reprovação por uma mulher, que só faltou colocar o dedo em riste e apontar que eu não tinha modos”, desabafou a cantora, na ocasião.

E, claro, vez ou outra, nos deparamos com artigos que exibem na manchete coisas como “sem sutiã, Lindsay Lohan exagera no decote e mostra demais”, “cantora Ludimila é criticada por postar foto sem sutiã” e por aí vai.

“Tá sem sutiã, gata?”

“Não é que eu não use sutiã. Eu só uso quando eu quero, porque isso é uma coisa minha comigo mesma. Se acho que vai ficar legal com a roupa, coloco. Se não estou com vontade, não”, diz a estilista Layana Thomaz, portadora de peitos tamanho 44. Pela liberdade, paga um preço. “É impossível contar quantas vezes me olharam com cara feia, de raiva, repreensão. E também tive que lidar com sujeitos quase com a língua de fora, me olhando babando e falando: “você está sem sutiã, gata”, diz a estilista. “É uma vida de namorados, maridos, pais e amigas reclamando, e pessoas que conversam comigo sem tirar o olho do meu peito. Isso sem contar que ainda tenho três cicatrizes no peito, o que causa nojo ou um furor inacreditável.”

As cicatrizes são fruto de cirurgias no coração (entre elas, um transplante) exibidas com orgulho pela estilista, que não se intimida com as caras de nojo.

“Minha vó chamava sutiã de arreio. Me sinto assim quando uso, apertada. Andar sem ele é uma sensação de liberdade que não tenho como descrever.”

“A maioria dos olhares discriminatórios que recebo quando estou sem sutiã é de mulheres”, conta a roteirista Sara Stopazzolli, “Eu usava por convenção social. Nunca gostei. A primeira coisa que fazia quando chegava em casa era tirar o sutiã. Quando passei a conviver com uma amiga que não usava, vi que poderia me libertar também”, diz Sara, que ainda não se considera “totalmente mamilo free”. “Quando visto uma blusa branca ou transparente, ainda uso. Acho que é uma questão de convenção social. Quando nos liberarmos totalmente, vamos ver que não usar sutiã não tem nada demais”, diz.

A publicitária Nathália Toledo Urban conta que, para ela, o fato de parar de usar sutiã tem a ver com aceitar seu próprio corpo. “Quando era adolescente, usava sutiãs com bojos enormes porque tinha complexo por ter peito pequeno. Na faculdade, comecei a desencanar, porque não era confortável. A sala de aula era quente. Era difícil me concentrar com aquela coisa me prendendo. Cheguei a ter alergia na pele. Parei, e tive que lidar não só com olhares, mas com fofocas na agência em que trabalhava, por não usar sutiã e ter piercing no mamilo.”

Se incomodou? Muito. Mas Nathalia não deixou de fazer o que queria. Assim como as outras mulheres ouvidas para essa reportagem.

Os moralistas que se incomodam com um peito (ei, é normal ter peito!) vão ter que aturar. Quer gostem ou não. Nem que seja necessário voltar a queimar sutiãs…

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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