PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

Caso da PUC-Rio ficou famoso, mas o racismo nas universidades é todo dia

Nina Lemos

11/06/2018 11h39

Uriara Marciel. Foto: arquivo pessoal. 

Semana passada, quem é normal ficou em choque quando as notícias dos casos de racismo praticados por estudantes da PUC do Rio de Janeiro foram divulgadas.

Para quem não soube: durante os Jogos Jurídicos (sim, eles vão ser advogados), estudantes da universidade resolveram "torcer" pelo time da universidade atacando estudantes negros de outras faculdades. Teve estudante imitando macaco quando uma jogadora estava em campo, casca de banana jogada na quadra e musiquinhas de conteúdo tão horrível que não serão reproduzidas aqui.

A universidade foi desclassificada dos jogos depois das denúncias e os casos estão sendo investigados pela polícia. Racismo é crime, sempre bom lembrar.

Esse não é o primeiro nem o último caso (infelizmente) de racismo em universidades brasileiras. "Os casos mais graves vão parar na mídia, mas todo dia é uma coisa diferente que sofremos", diz a estudante de comunicação Michelli Oliveira.

Esse blog ouviu mulheres negras sobre suas realidades nas universidades do Brasil. Realidade que, claro, a gente espera que mude. E, importante, elas se formaram,  ocuparam seus espaços e não, não vão parar. "Não sei se essa realidade um dia vai mudar, mas cada vez sabemos mais dos nossos direitos e enfrentamos, não ficamos quietas", diz Michelli Oliveira, 28 anos, que esse ano se forma em Comunicação no Mackenzie.

Leia os depoimentos abaixo:

"Como você tem coragem de sair na rua assim?"

Michelli Oliveira. Foto: arquivo pessoal

"Muitos brancos nunca aceitaram ver o preto tomando lugares que são nossos por direito. Eles acham que só eles podem estar nesses lugares. Estudo no Mackenzie, onde o que mais tem é caso de racismo. As histórias que saem na mídia são as mais gritantes, como o caso dos banheiros (em três ocasiões diferentes pixações racistas foram encontradas no banheiro das universidades), mas todo dia é uma coisa diferente que sofremos.

Diretamente, já aconteceu comigo de estar de turbante tirando um cochilo no diretório. Tinha uma janela na grade das aulas e sempre dormia nesse período. Acordei com três pessoas sentadas na minha frente falando que não sabiam como eu tinha coragem de sair na rua daquele jeito, apontando para o meu turbante. No primeiro ano da faculdade, ouvi de uma menina que eu ia sempre com a mesma roupa, o que era inadmissível para uma universidade de nível, que era um absurdo, que o Mackenzie estava aceitando de tudo mesmo.

Uma vez, em um seminário sobre racismo e questão social, minha professora disse que eu não sabia o que era racismo. Ela era branca e tinha passado a vida na Europa. Lembro de ter ficado chorando de raiva no corredor.

Indiretamente, já aconteceram várias coisas. Uma vez estávamos participando de uma reunião do Afromack (coletivo afro da Mackenzie da qual Michelli faz parte) no bosque, um segurança pediu nossas carteirinhas e, mesmo com a gente mostrando, não acreditou que fossemos alunos. Afinal, um bando de pretos reunidos não podiam ser alunos de lá. Tivemos que pedir para chamar o chefe dele, pois ele queria nos tirar do campus. Essas coisas não são só comigo, são com todos os pretos que estão ali. Racismo no Brasil é uma questão estrutural". Michelli Oliveira, 28 anos, é estudante de jornalismo

"Larguei minha primeira graduação por causa do racismo"

"Comecei minha primeira formação no interior da Bahia, em 2002, e não consegui completar por causa do racismo. Sou hiperativa, por isso sentava sempre na primeira fila para conseguir me concentrar. Um grupo de meninas sempre falava: 'Não consigo enxergar nada por causa desse cabelo. Tenho uma cabeleireira ótima para indicar para você'. Até aí, fui levando.

Uma vez, fui fazer um comunicado no pátio, sobre uma atividade. Estava em cima de uma cadeira, na frente de todo mundo. Algumas pessoas não estavam prestando atenção e eu disse: 'Gente, silêncio, vamos prestar atenção'. Nisso, uma das garotas que já implicava comigo gritou: "Sai daí, sua negra ignorante." Aquilo, na frente de todo mundo, me derrubou. Mas sempre fui de movimentos negros e fui atrás dos meus direitos.  Dei entrevista na TV da cidade, denunciei. Mas nada aconteceu. Larguei a faculdade. Eu tinha 19 anos. Não consegui lidar com isso. Não dava para ir na faculdade sentindo tanta raiva. Fui fazer terapia.

Depois de um bom tempo, fui estudar Artes Cênicas em Brasília e a experiência foi totalmente diferente. As pessoas eram abertas, fiz muitos amigos, negros e brancos. Completei a graduação e em 2010 decidi fazer um curso técnico na Estácio de Sá, em Macaé, em Recursos Humanos, uma formação de dois anos. Aconteceu de novo e vindo de um grupo de meninas. Elas me mostravam vídeos racistas no celular. Entrava na sala e cantavam 'negra do cabelo duro'. Era um curso noturno, as pessoas eram adultas e me defendiam. Aí elas mudavam a letra, para não falar 'negra', mas continuavam cantando. Eu já era adulta.  Já tinha bagagem de vida. Não deixei que quatro garotas racistas idiotas me atrapalhassem e completei a graduação. Mas é sempre isso, né? Como você tem duas graduações, como você é fluente em inglês e agora fala até alemão, nossa, como pode?"

Uriara Maciel, 38 anos, é formada em Artes Cênicas e Relações humanas, atriz e produtora cultural

"O racismo não dorme"

"Durante todos os meus anos na universidade, foram quatro na graduação, dois no mestrado, e agora recomeçando outro mestrado, o racismo sempre esteve presente. Algumas vezes em discursos e atitudes muito claros, como quando um professor branco afirmou na aula de telejornalismo que o cabelo do jornalista não poderia chamar atenção, por isso tinha que ser liso e sem nenhum penteado chamativo. E quem quisesse seguir esse caminho devia pensar se era ou não feito para isso.

Mas o que é mais forte, o que é latente, mesmo, é você estar em um lugar cercada de pessoas diferentes de você, onde muitas vezes você é a única e que as pessoas ainda te falam coisas como: 'Sua pele é tão bonita, é clarinha', como se  isso fosse um elogio. Foi um trabalho danado resolver essas questões, ou pelo menos resolver em parte. Esse sentimento de não pertencimento, de não estar no lugar certo, foi um dos estopins da minha depressão, que me levou a abandonar o mestrado que eu fazia na UFRJ. Foi angustiante, me sentia sem apoio. No Brasil, as nossas vidas não valem nada. O número de assassinatos de mulheres negras cresceu 22% em 10 anos. Enquanto das mulheres brancas caiu 7,4%. 71% dos assassinatos de pessoas no país são negras. Isso nos desumaniza.

Todo dia a gente se depara com racismo. O racismo não dorme. É muito cansativo ter que estar sempre armada."

Erly Guedes, 31 anos, é jornalista formada na Universidade Federal do Maranhão e mestranda em comunicação na UFF

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.