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Nina Lemos

Racismo e assédio na Copa: o que sempre existiu, agora, é inaceitável

Nina Lemos

03/07/2018 04h00

Foto: Edu Morais/UOL

Casos de assédio de torcedores contra mulheres (não só de brasileiros, mas de cidadãos de outros países também), "piadas" racistas, homofobia. O que acontece com a Copa de 2018? Ela está sendo pior do que todas? O campeonato despertou um demônio nas pessoas? Não acho. Do  que observo do mundo faz tempo:  sempre existiu abuso e preconceito (inclusive muito mais). O que diminuiu foi a tolerância a atitudes preconceituosas  e abusivas. O que não quer dizer que o mundo tenha ficado chato, de jeito nenhum.

Caso mais recente de "polêmica" da Copa do Mundo. Sábado, durante o jogo da França, o youtuber Julio Cocielo, que  tem 7 milhões de seguidores no youtube e mais de 16 milhões de assinantes em seu canal , resolveu fazer uma "piada" com  o jogador negro Mbappé. "Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein" (sic).

Cocielo, claro, foi acusado de racismo. Apagou o tuíte, disse que as pessoas não tinham "entendido a piada." Bem, seguidores recuperam tuítes antigos dele sendo MEGA racista, tão racista que prefiro necielm publicar aqui. Racismo é crime. Não tem graça. Ele apagou todos (eram muitos). Na rede, usuários pedem que seus patrocinadores o boicotem.

Museu de grandes novidades

"Piada racista" não é novidade. Eu cresci nos anos 80, quando racismo era liberado em programa de TV. Assisti agora há pouco no Youtube uma antiga cena dos "Os Trapalhões" onde Mussum era chamado de "criolo" e de "urubu que não avoa." "Os Trapalhões" eram ótimos. Mas a humanidade evolui (e, sim, graças a aqueles que reclamam e apontam o dedo, graças à turma do "mimimi").

Os casos dos brasileiros assediando russas e gravando vídeos (além de tudo, foram burros) também viraram escândalo. Ótimo. Mas homens bêbados, ou, sei lá, muito animados (as desculpas de sempre), agindo como ogros depois de um jogo de futebol ou no Carnaval não é novidade, infelizmente.

Que mulher já não passou, em pânico, no meio de um bloco ou concentração de testosterona correndo com medo de ser assediada? Quem nunca levou passada de mão ou ouviu piadinha nesse tipo de situação?

Nada disso é novidade. A novidade é que agora isso deixou de ser normal. No mundo de 2018, certos comportamentos não são mais  aceitos porque tem gente que reclama, chia e dá escândalo.

Muitos de vocês dirão que é mimimi, que a graça do mundo acabou etc. Discordo fortemente, inclusive porque os memes da Copa estão ótimos e tem muito jeito de dar risada sem ofender ou magoar ninguém. Tem zoeira saudável? Sim! (inclusive, vocês viram o vídeo do Neymar rolando no campo, que ele sai rolando, rolando e passa rolando por vários lugares? É ótimo).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.