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Nina Lemos

Caso Dr. Bumbum: não podemos mais acreditar no milagre do corpo perfeito

Nina Lemos

17/07/2018 17h05

No Instagram, ele postava imagens como a de uma bunda dura e perfeita. A bunda era tão apetitosa que um garfo era espetado nela para provar. Para combinar com tal imagem, uma mensagem de auto-ajuda: "Semana intensa de realizações, sonhos e desejos. #bioplastia #bioplastiaglúteos. Voltando para casa. Saúde e Beleza sempre! #DrBumbum ensina… viva intensamente, aproveite cada pedaço, porque a vida é agora."

A mensagem parece macabra agora que sabemos que o tal Dr. Bumbum (o medico Dênis Furtado), como era conhecido nas redes sociais, é o suspeito pela morte da advogada Lilian Calixto, de 46 anos. A paciente morreu após um procedimento realizado em um apartamento na Barra da Tijuca para aumento dos glúteos e o medico está foragido.

Dr. Bumbum era uma celebridade na internet entre as mulheres que procuram plásticas. Só no Instagram, ele contabilizava mais de 600 mil seguidores.

Dá para entender o porquê. Dr. Bumbum, que, agora sabemos, não tinha registro para realizer esse tipo de operação e ainda as realizava em apartamentos e não em hospitais, vendia milagres. A formula do "antes e depois", com aqueles detalhes como "em dois dias você está pronta", é tentadora.

Ainda mais em um país em que, sabemos, a pressão estética é gigante. Somos conhecidos mundialmente como o país da bunda. Muitas de nós ainda sonham com "corpo perfeito" para o biquíni. Queremos ter "autoestima", como se isso dependesse da bunda ser grande e em pé. Sonhamos com a bunda perfeita enquanto vemos imagens de musas disso e daquilo no Instagram. Elas afirmam ter #foco.

Como se procura um médico que opera em casa e atende pelo nome de Dr. Bumbum é a pergunta que todos se fazem. Acho que por alguns motivos. Primeiro, o papo de que "é uma coisinha de nada" costuma colar. Segundo, o milagre dos antes e depois. E, terceiro, as condições de pagamento: se todas as ricas têm, também quero ter.

Infelizmente, Lilian não é a primeira (nem deve ser a última) brasileira a morrer em cirurgias plásticas praticadas por medicos irresponsáveis, que agem mais como agentes de marketing propriamente ditos.

Entre os casos mais famosos das "plásticas que deram errado", está o de Andressa Urach, ex-vice-miss bumbum, que teve um infecção seríssima em 2014 depois de uma série de aplicações de hydrogel.

Dr. Bumbum atender em casa, ter ficha suja na polícia e usar o nome da mãe para alugar um consultório torna tudo mais sinistro. Mas a banalização da cirurgia plástica no Brasil existe faz tempo.

Vice-campeão mundial

O Brasil é o vice-campeão mundial de cirurgia plástica. No ano de 2016, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, o país registrou mais de um milhão e quatrocentas mil cirurgias.

Só perdemos para os Estados Unidos em número de procedimentos estéticos. Nossas técnicas atraem turistas das plásticas. E alguns procedimentos, que incluem implante de silicone no bumbum mais lipoescultura, ganham o nome de "brazilian butt lift". No Youtube, existem centenas de vídeos feitos mundo afora sobre o tal procedimento.

Os comentários são parecidos com os publicados na página do Dr. Bumbum no Instagram: "Eu quero". "Qual o preço?" "Como paga?"

O imediatismo que leva a esse tipo de carniceiro estilo Dr. Bumbum é preocupante e toda a história é muito triste. Que sirva de alerta. Não existe milagre. E você não precisa (mesmo) ter o corpo perfeito. Imagem não é tudo.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.