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Nina Lemos

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#Porramaridos: por que homem não cuidar da casa é impensável na Alemanha?

Nina Lemos

27/07/2018 04h00

Foto: Getty Images

Essa semana, uma hashtag tomou conta do Twittter e me fez rir, na maioria das vezes de nervoso. Mulheres usaram a tag #porramaridos para reclamar do que os seus maridos não fazem em casa (ou fazem, mas errado). Ou fazem (mas depois delas implorarem e, mesmo assim, erram).

As histórias são incríveis e mostram uma realidade bizarra que não nos surpreende em nada. Homens brasileiros, no geral, são um desastre nas tarefas domésticas (e alguns até se orgulham disso).

Exemplos da "campanha" #porramaridos no Twitter.

"História de ontem. 'Põe a roupa na máquina para mim?' 'Ponho'. Ele colocou as roupas na máquina, mas não ligou, porque eu não tinha pedido."

"Sempre que meu irmão lava a louça ele não lava as panelas porque, choquem, ELE NÃO SABE O QUE FAZER COM A COMIDA DENTRO DAS PANELAS. Agora pasmem. Muitas vezes nem tinha comida dentro da panela, ela só estava fechada mesmo."

Enquanto lia, e ria, eu sabia que tudo o que estava escrito era verdade. E eu não estava surpresa (nem um pouco) com os depoimentos. E também pensava o quanto isso seria impensável na Alemanha (país onde moro há quatro anos).

Se eu sair na rua e traduzir as histórias, vão achar que eu estou inventando.

Homem que não sabe ligar uma máquina? Lavar uma panela? O pensamento alemão seria objetivo e prático, como sempre, tipo: "que problema ele tem? É alguma doença?."

Na Alemanha, os homens são normais no que diz respeito a tarefas domésticas, ou seja, eles colocam a roupa na máquina (e ligam a máquina!), lavam a louça, cozinham, passam aspirador, limpam a privada. Ou seja, eles são adultos normais.

Mas por quê?

Para começar, aqui não existe empregada doméstica, nem o abismo entre classes que existe no Brasil. Mesmo as pessoas bastante ricas lavam sua própria louça (por isso mesmo, em geral, as casas têm uma máquina de lavar louça, dã), cozinham a própria comida, lavam sua própria privada. Isso é o normal. Nunca conheci uma pessoa na Alemanha que tivesse uma empregada doméstica.

E cada vez mais acho absurdo tudo o que escrevi acima.

Como assim não lavar a própria louça?

Quando comento essa realidade do Brasil por aqui, as pessoas custam a acreditar. Já escrevi sobre isso, quando vi o filme genial "Que Horas Ela Volta", da Ana Mullayert, em Berlim e ouvi o seguinte: "o filme é ótimo, mas ninguém vai acreditar que isso existe em algum lugar." (uma empregada doméstica que mora em um quartinho em uma casa de classe média).

Crianças de cinco anos

Ok, nem todo mundo tem empregada doméstica no Brasil. E, quando as pessoas não têm, em geral, sobra para a mulher, o que fica claríssimo nessa hashtag no Twitter. Os homens muitas vezes se comportam como crianças de cinco anos de idade. Ou menos, porque nos Kindergarten (jardim de infância) alemães, as crianças já aprendem coisas básicas, como escovar os dentes, lavar as mãos depois das refeições e… lavar a louça.

Maiorzinhas, elas já passam a cozinhar, fazer faxina na escola (e eu acho, sinceramente, que alguns pais com filhos em escolas de elite do Brasil poderiam reclamar se seus filhos aprendessem tarefas domésticas na escola, com argumentos do tipo: "não pago escola do meu filho para isso!").

Conversei com a amiga brasileira psicpedagoga Patricia Matte Bastos, mãe de duas filhas, que mora há mais de dez anos na Alemanha, para tentar entender melhor o que cria essas diferenças.

"Eu penso que as mulheres européias são mais emancipadas e têm menos necessidade de agradar o marido, além disso, desde outras gerações, já trabalham fora e não há empregadas, portanto, o serviço tem que ser obrigatoriamente dividido, porque não tem como uma mulher trabalhar fora e fazer todo serviço da casa. Não dá."

Patrícia é mãe de duas filhas e conta que elas (e os meninos também, óbvio) aprendem na parte da tarde da escola (período depois da aula em que as crianças continuam na escola se dedicando a outras atividades, como esportes e músicas) a realizar tarefas domésticas e tem aula de culinária. "Elas aprendem a cozinhar na escola mesmo, e muitas vezes o professor é um homem, que eles adoram, tem como ídolo."

Pensem. Se as crianças crescem vendo o pai fazer, o professor fazer… elas vão crescer achando que cuidar da casa é normal e… afinal… É!

Epílogo necessesário. Eu tenho vários amigos no Brasil que são, sim, normais como donos de casa. A maioria deles é ou gay ou divorciado. O que me faz pensar que as coisas melhoram quando não se tem uma mulher do lado para ser a mamãe. Homem divorciado com filho, em geral, cuida, cozinha e dá comida. E, claro, existem héteros casados que são ótimos. Para os outros, um conselho: vocês são capazes! Tenho certeza!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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