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Monica e Tatiane: até quando mulheres vão cair de edifícios?

Nina Lemos

06/08/2018 11h38

 

Quando eu tinha 14 anos, meu pai me chamou para uma conversa séria e disse: "Tome cuidado, você vai começar a sair, não vá para casa de desconhecido, cuidado com esses caras." Ele estava, como todos os pais do Brasil, chocado com o caso de Mônica Granuzzo, uma menina da minha idade que "caiu de uma janela" enquanto, segundo as investigações, tentava escapar de um estupro.

Os suspeitos eram jovens descolados. Eles se conheceram na boate Mamão com Açúcar, um clássico que quem viveu os anos 1980 no Rio de Janeiro deve lembrar. O principal envolvido no caso, o modelo  Ricardo Peixoto Sampaio, foi condenado a 20 anos de prisão. Cumpriu 1/3 da pena e está livre.

O caso de Mônica, acontecido em 1985, foi um trauma para a minha geração. Lembrei de novo da história ao ver os vídeos terríveis que antecederam a morte de Tatiane Spitzner. A advogada morreu dia 22 de julho e as terríveis imagens da agressão sofrida pelo marido foram divulgadas sexta-feira passada no Jornal Nacional. As cenas mostram o marido da vítima, Luis Felipe Manvailer, a agredindo na garagem, no elevador. E, por fim, um corpo caindo. Luis Felipe é acusado de assassinato. A defesa dele diz que ela se "jogou".

Moças feito passarinho, avoando de edifícios

É assustador pensar que eu tinha só 14 anos quando soube que nós, mulheres, tínhamos que tomar cuidado para não sermos jogadas pela janela. Ou levadas a pular, desesperadas. E chocante notar que pouca coisa mudou nesse sentido em 30 anos. Ainda há "moças feito passarinho, avoando de edifícios", como cantou Chico Buarque em "Paratodos". Sensação que dá: medo e pavor.

Nos anos 1900, não existia nem a palavra feminicídio, isso muito menos era lei. Também não existia Delegacia da Mulher, conversas sobre relacionamentos abusivos, não tínhamos acesso a tantos coletivos feministas (e, sim, esses coletivos podem salvar vidas, e salvam). Mas, mesmo assim, continuamos caindo de edifícios.

Repito aqui a história de Tatiane, por mais dolorosa que ela possa ser, porque ela precisa ser lembrada.

Importante: na maioria dos casos, a dor da gente "não sai no jornal". Não ficamos nem sabendo da maioria dos crimes, principalmente quando essas mulheres são negras e pobres (vamos ser realistas). Os números mostram: 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil são negras, segundo dados do Mapa de Violência do Ipea de 2015.

Mais dados importantes: em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias no Brasil vítimas de femicídio. Cerca de 30% foram mortas por seus parceiros. A cada 7,2 segundos uma mulher é vítima de violência física no Brasil.

Daí, dá para ter a noção de quantos casos acontecem sem que a gente fique sabendo. E do quanto os números são assustadores.

Espero que os casos famosos sirvam de alerta contra todos os outros. E, quando penso nisso, fico feliz por não ter uma filha (principalmente, no Brasil) e ter que conversar com ela sobre tudo isso. Assim como ouvi quando tinha apenas 14 anos… E, pior, meu pai estava certo de ter essa conversa. Tristeza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.