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Nina Lemos

Quer sair do Brasil? Ótimo, mas prepare-se para lidar com a xenofobia

Nina Lemos

29/08/2018 04h00

A tradutora Nathália Toledo Urban. Foto: arquivo pessoal

Se você está de saco cheio da crise do Brasil e seu passaporte europeu finalmente saiu, isso significa que… você vai poder fugir. Você tem planos? Quer estudar? Construir uma nova vida? Ótimo. Mas isso também significa que você vai ter que lidar com um monte de problemas. Não estou falando da língua, da saudade. Mas de algo bem pior: você pode ser vítima de xenofobia.

Segunda-feira, na cidade de Chemntiz, na Saxónia, leste da Alemanha (país onde moro), cerca de seis mil manifestantes contra imigrantes (incluindo neonazistas e cidadãos xenófobos, em geral) foram às ruas por conta de um assassinato de um alemão (os suspeitos são um sírio e um iraquiano). Em uma noite de terror, neonazistas perseguiram estrangeiros (alguns foram espancados) pela cidade. Ontem, a polícia avisou que os imigrantes deveriam, por razões de segurança, ficar em casa. Imaginem o medo de quem não é alemão e mora lá? Só de pensar, me arrepio.

"Ah, mas eu não sou refugiada, imagina! Eu tenho passaporte alemão, eu sou loira". Se esse é o seu caso, aviso que ser loira ajuda, sim, infelizmente. Mas só porque aí fica mais difícil descobrirem que você é brasileira. Se você falar em português ou inglês, não interessa, você vai correr risco em lugares como esse. Se eu morasse nessa cidade, estaria trancada em casa, escondida embaixo da cama.

Não moro e não estou falando que é assim na Europa inteira. Não é. Mas, mesmo em cidades tipo Berlim (que é considerada uma das cidades mais abertas e modernas do mundo e é onde moro), existem pequenos atos preconceituosos que machucam. E, claro, viver em um país onde você sabe que naquele momento em uma cidade tem nazista gritando "Estrangeiro, vá embora!", "Queremos vocês longe daqui!" não é um sentimento bom. Mesmo.

Mas e no dia a dia? Bem, no dia a dia existe xenofobia, sim. Não estou falando que você vai ser atacada por neonazis. Provavelmente, não vai. Eles são raros por aqui (ou ficam bem escondidos). Mas você vai sentir o preconceito em coisas pequenas. E essas coisas pequenas também machucam. E, claro, ainda existe aquele preconceito especial dedicado a mulheres brasileiras (dançarina de samba, hipersexualizada etc).

"Você não está em Copacabana!"

Ontem, enquanto acompanhava as notícias do protesto neonazista, recebi o relato de uma amiga, a designer Helena Nanovic. Com problemas na coluna, ela tinha ido ao médico e sido alvo de preconceito.

"Tenho problema de coluna e fui ao médico levar um exame que tinha feito. Ele perguntou se eu queria uma injeção e partiu para o exame dos pontos de dor. No primeiro, eu senti uma dor aguda forte, então, gritei. Foi quando ele soltou: 'Não grite, não estamos em Copacabana'. Quando terminou o exame, menos de um minuto depois, ele me disse que eu preciso me exercitar para mexer os músculos. Daí, eu perguntei que tipo de exercício. E, nesse momento, ele começou a levemente mexer o quadril e disse 'mexer o quadril, como fazem no Rio o tempo todo'. Teve também o comentário em que ele disse que 'português não gosta de injeção', meio rindo, no que eu interpretei como uma ridicularização. Eu me senti muito, mas muito diminuída."

Helena, que conta que o médico foi agressivo e irônico, mora na Alemanha há seis anos e nunca tinha passado por situação semelhante. "Como eu não pareço o que os alemães esperam de uma brasileira, normalmente, passo despercebida."

"Brasileiro é preguiçoso"

Os relatos de amigas que já passaram por coisas parecidas são muitos. "Eu trabalhava em um bar e o meu chefe falava que gostava de trabalhar com mulher brasileira porque a gente tinha um jeito de especial de andar. Mas que, para pegar no pesado, o bom mesmo era polonês. Depois, em outra empresa, ouvi da minha chefe que 'brasileiro não trabalhava bem porque era tudo preguiçoso'. Renata não foi embora. É mãe de um menino de um ano e está grávida do segundo filho (seu marido é alemão).

Calma que pode piorar. A tradutora Nathália Toledo Urban trabalhava em um salão de beleza, em Londres, quando ouviu o seguinte do chefe, dono do salão. "É verdade que brasileira gosta de sexo anal? Devem gostar, ne? Deve ser por isso que homem brasileiro gosta tanto de bunda".

Os preconceitos não são só os que incluem dançar samba, ser gostosa e esse tipo de coisa. Existe também o preconceito que é democrático para todos os sexos. "Uma vez, concorria a uma vaga para ser recepcionista em Londres e ouvi que brasileiro só servia para limpar o chão", conta Nathalia. Nada contra quem trabalha limpando o chão. Mas imagina escutar isso? "Também já ouvi muitas vezes que era para eu ir embora, isso em Londres. Tive ataque de pânico. Nem consigo pisar lá". Hoje, Nathália mora na Escócia, onde, por enquanto, as coisas estão mais tranquilas para ela.

Nathália se arrepende de não ter processado o ex-chefe. Helena vai denunciar o médico. E assim seguimos.

Não estou desencorajando ninguém. Morar fora, viajar, é, sim, uma experiência incrível. Mas é preciso estar preparado para passar por coisas como essa. Ou simplesmente encontrar um cartaz na rua escrito: "Estrangeiros vão roubar nosso trabalho". Já aconteceu comigo. Arranquei e continuei andando.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.