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Nina Lemos

Nina Lemos

Grupo Mulheres com Bolsonaro tem orações, ataques a globais e "bolsogatas"

Universa

2021-09-20T18:04:00

21/09/2018 04h00

Reprodução/Facebook

Passei três dias no grupo "Mulheres com Bolsonaro", que conta, até o fechamento desta reportagem, com mais de 850 mil participantes (e mais 700 mil que ainda não aceitaram o convite).

Antes de tudo: o grupo não é formado por homens, como se diz por aí. São, sim, mulheres, e muito ativas. Existem centenas de respostas por minuto.

Entre vídeos, memes e saudações ao "mito", elas se chamam de "bolsogatas" e "bolsolindas" e discutem os acontecimentos políticos do dia.

O que mais faz sucesso no grupo  são comentários sobre outras mulheres e famosos.

Na terça-feira, 18, dia em que foi divulgada uma  pesquisa do Ibope — no qual o candidato Jair Bolsonaro continuava em primeiro lugar, com 28% das intenções de votos –, um dos posts mais comentados no grupo era sobre quem são as celebridades que apoiam o candidato.

O post contava com mais de sete mil comentários e incluía nomes como Gusttavo Lima, Roger, Ratinho, Silvio Santos e Antonia Fontenelle, uma das musas do grupo. Silvio Santos e Ratinho, porém, não declararam apoio ao candidato.

Boicote à Globo

Entre terça e quinta-feira, o período em que acompanhei o grupo, também vi muitas postagens de mulheres que se dividem entre orar pela saúde do candidato, fazer campanha na internet e atacar famosas que declararam ser contra Bolsonaro.

Sasha e Bruna Marquezine, por exemplo, tinham se manifestado na campanha #Elenão. Elas eram descritas como "ridículas que nunca pegaram um ônibus". Em algumas postagens, mulheres se organizavam para ir até o perfil das duas escrever o nome do candidato e mostrar para elas "quem vai ganhar".

Uma postagem onde uma mulher declarava "estar com ranço das atrizes da Globo" também fez muito sucesso (este post tinha, até o fechamento deste texto, 847 likes e 500 comentários). As moças planejavam um boicote à emissora por suas atrizes, como Deborah Secco, se posicionarem contra Bolsonaro. "Estão fazendo isso a mando da Globo!", escreveu uma.

Curiosamente, nos três dias em que passei no grupo, vi poucas menções aos candidatos que concorrem com Bolsonaro.

Fake News

A pesquisa do Ibope divulgada na terça-feira mostrava que, apesar de ser líder com 28% das intenções de voto, Bolsonaro perdia no Nordeste. A pesquisa era tida como "mentirosa" e "manipulada".

O mesmo para a pesquisa do Datafolha, divulgada na quinta-feira, 20, considerada "muito estranha."

Mais do que falar em cenários políticos (uma participante perguntou quem elas preferiam no segundo turno, entre Fernando Haddad e Ciro Gomes, e outra respondeu: "mas que pergunta estranha"), as participantes criticam feministas e tentam, ao mesmo tempo, provar que Bolsonaro não é homofóbico, nem racista ou machista.

"Machista é o c…"

Em um vídeo montagem, intitulado de "melhores momentos do mito",  está escrito: "Machista, racista e homofóbico é o c…". Nas imagens, o candidato chama de "maricas" e "vagabundos" quem defende os direitos humanos e fala para um adversário: "Vai dar a rosquinha onde você quiser". "Ele só não quer essa palhaçada nas escolas", responde uma.

As participantes acreditam que as mulheres que se opõem ao candidato são "manipuladas", "burras" e usam lemas oriundos do feminismo, como "juntas somos mais fortes".

Em um dos memes, a eleitora do Bolsonaro é ilustrada por uma linda Mulher-maravilha. A contra o Bolsonaro, por uma menina que exibe as axilas sem depilar — "que nojo", "isso é falta de higiene", "falta de rola", se exaltam.

Alguns pontos polêmicos da candidatura de Bolsonaro também foram discutidos no grupo nesses três dias. A fala do vice de Bolsonaro, o  general de reserva Hamilton Mourão, é considerada por elas "mal interpretada". "Ele apenas disse o óbvio, de que crianças precisam da pais presentes."

Mourão disse que "A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados".

"A oposição deturpa tudo que Bolsonaro/Mourão fala, ele só disse que o estado tem que estar mais presente e dar infraestrutura para as mulheres", disse outra.

Para provar que Bolsonaro não é machista, elas usam, entre outras coisas, o fato do candidato ser a favor da castração química para homens que cometam estupros.

Exército de mulheres

Um vídeo em que o candidato conta que sua mulher era mãe solteira e que ele reverteu uma vasectomia para ter uma filha também é compartilhado. Nos comentários, corações, bandeiras do Brasil e emoção.

Na quinta-feira, 20, meu último dia no grupo, as mulheres com Bolsonaro tinham uma pauta urgente: defender a cantora Anitta, que estaria sendo alvo de ataques por "ser Bolsonaro". "Vamos lá, todas escrevendo #forçaAnitta." "Essas feministas são todas da paz, né, agora estão atacando a Anitta", escreviam.

A certeza de que Bolsonaro ganharia no primeiro turno era inabalável.  Vídeos de mulheres com Bolsonaro fazendo sinal de arma eram compartilhados, assim como carreatas e eventos a favor do candidato Brasil afora.

O "exército de mulheres com Bolsonaro", apesar de duvidar das pesquisas, está otimista e animado para os 17 dias que sobram de campanha: "Um sinal", dizem, fazendo alusão ao número do presidenciável.  "Nosso candidato está acamado, mas nós nos levantamos por ele", dizem. Com muita fé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.