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Nina Lemos

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Após eleições, expatriados brasileiros viram "vítima de tragédia"

Nina Lemos

02/11/2018 12h06

Lallo Lemos (imagem: Arquivo pessoal)

"Sinto muito." "Como isso foi acontecer?""Como você está?" Desde segunda-feira, após a eleição de Jair Bolsonaro, noticiada na midia internacional como uma tragédia para o Brasil e para o mundo, quem mora fora do país passou a lidar com essas reações.

"As pessoas no meu trabalho me tratam como se tivesse morrido alguém da minha família", diz o especialista em marketing Fernando Santos, que trabalha em uma startup em Berlim e tem colegas de várias partes do mundo.

"Tenho uma colega síria de quem gosto muito, mas, por razões culturais, ela diz que não pode abraçar homens. No dia seguinte à eleição, ela veio e me abraçou e disse que entendia a minha tristeza." A colega de Fernando é refugiada e sua família está em Aleppo. "Ela disse que me entendia e que poderia conversar comigo se eu quisesse, porque sabia o que era ter medo do seu país ser destruído."

Parece exagero? Parece. Mas nos dias seguintes à eleição os jornais alemães noticiavam coisas como: "Medo da ditadura", "Isso não poderia ter acontecido no Brasil". "Sobre o Brasil só nos resta rezar."

"As pessoas não perguntam mais 'tudo bem?',mas dizem: 'sinto muito'", diz o cineasta Dácio Pinheiro, que divide seu tempo entre São Paulo e Berlim.

A atriz Uriara Maciel, que também mora em Berlim, recebeu a mesma solidariedade de um colega sírio. "No dia seguinte à eleição, o Mohamed, que está aqui como refugiado, me mandou um email muito bonito, falando que sabia o que era ficar preocupado com a família e os amigos e que poderíamos tomar um café para conversar, para eu procurá-lo."

Na França, onde o noticiário vai na mesma linha, o clima também é de consternação. "No dia da eleição meu ex cunhado francês me ligou, aos prantos. Ele gosta muito do Brasil e o medo da ascensão do fascismo na Europa é muito grande", ela diz. Marcia, que é jornalista da RFI (Radio France Internacionale) recebeu mensagens de solidariedade de amigos com quem não falava há tempos. "Eu não toquei no assunto. Eles me procuraram porque para eles era certo que algo muito sério tinha acontecido no Brasil".

Você não vai voltar não, né?

Outra questão levantada pelos estrangeiros é o fato de que os expatriados agora não estão mais "morando na Europa por um tempo", mas não vão mais voltar. "No meu trabalho comentaram isso comigo. Que agora eu ficaria aqui, não voltaria. E também perguntaram o que eu faria com a minha família, conta Fernando.

O designer Lallo Lemos mora há 20 anos em São Francisco, nos Estados Unidos, e sente o mesmo clima. "No dia seguinte à eleição, quando cheguei ao trabalho, parecia que alguém da minha família tinha morrido. Veio todo mundo me abraçar e dar condolências. Por eu ser gay, as pessoas ficam muito preocupadas também com o risco de eu ser alvo de ataque homofóbico quando for (ao Brasil) nas férias e me dizem: 'você não vai passar as férias lá não, certo?'"

De novo, parece exagero. Mas os sites e revistas internacionais dedicados à comunidade LGBT tem considerado o novo presidente "extremamente perigoso para a comunidade LGBT no Brasil" e os casos de ataques a gays também estão sendo noticiados.

Sim, os "gringos" estão preocupados. E com motivos.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.