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Nina Lemos

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O mundo fala sobre banir celular em escola; Brasil discute filmar professor

Nina Lemos

09/11/2018 04h00

Foto: Getty Images

Aluno pode ou não filmar professor na escola? Essa questão apareceu no Brasil desde que a deputada estadual do PSL Caroline Campagnolo, de Santa Catarina,  pediu que alunos filmassem professores que estivessem "doutrinando os alunos". Virou um escândalo. E nem vou entrar no caso do que é doutrinar por aqui. Fato é: enquanto discutimos se um aluno pode ou não filmar um professor dando aula, alguns dos países famosos pela qualidade da educação banem o uso de celular na escola.

A proibição não é conectada com o fato de um aluno filmar um professor (quem ousaria uma coisa dessas, meu Deus?). Mas com o rendimento escolar mesmo.

Na França, desde o início do ano letivo, em setembro, estudantes não podem usar celular no colégio. Isso vale para escolas que têm alunos de seis a 15 anos. No caso do ensino secundário (Liceu), o governo recomenda a proibição. Mas ela é opcional. Defendida pelo presidente Emmanuel Macron, a medida pretende fazer uma "desintoxicação" nas crianças. Houve polêmica e gente contra? Claro. Mas o parlamento aprovou.

A mesma medida foi tomada na Grécia, em julho, em todas as escolas. Segundo o Ministro da Educação do país, o objetivo foi diminuir a distração causada por mídias sociais e games. Celulares também são banidos em alguns estados do Canadá e países como Alemanha, Suécia e Inglaterra pensam em seguir o exemplo da França. Na Alemanha, o Sindicato Nacional dos Professores divulgou uma carta, no mês passado, pedindo que o mesmo aconteça no país. Segundo eles, celular na classe atrapalha a concentração. Como negar?

Agenda era celular dos anos 80

Sou uma adulta que estuda. Admito que, no meio de uma aula de alemão, já entrei no Twitter discretamente algumas vezes. Mas raramente, com cuidado. E, claro, nunca filmei meus professores. Mas sou adulta. Se fosse adolescente, talvez não tivesse o mesmo comportamento. Na minha época, na ausência de rede social, usávamos agenda. Ali, escrevíamos nossos pensamentos íntimos, fazíamos colagens, amigos escreviam nela. A agenda era tipo um celular, já que, se a perdêssemos, seria uma tragédia (não tinha backup). Claro que muitas vezes escrevíamos na agenda na sala de aula. E levávamos bronca. Se tivesse celular na época, provavelmente eu nunca teria assistido a uma aula de Química.

Perguntei para amigos brasileiros, pais e professores, como é a situação no Brasil. A maioria me contou que os filhos podem, sim, levar celular para a escola, mas que a regra é que eles fiquem na bolsa.

Nem sempre, claro, eles obedecem. E adolescente desobedecer, claro, é uma questão global. Tenho um enteado de 15 anos que estuda em uma escola com regras parecidas (celular, sim, mas na mochila) na Alemanha. Um dia, foi pego jogando pelo celular em grupo com amigos durante a aula. A professora, certíssima, confiscou os celulares, que só puderam ser recuperados com a ida de responsáveis à escola.

Não consigo não imaginar o que teria acontecido se um colega começasse a filmar a professora gritando: "Comunista, ela confiscou telefones!". Fato: todos os adultos envolvidos apoiaram a professora e meu enteado ficou três meses proibido de usar celular. Achei bem feito. Fosse meu filho, faria igual.

Meus amigos pais argumentam que é necessário aprender a usar as redes com responsabilidade (e esse assunto é discutido por educadores do mundo todo). Outros acham, de certa forma, bom que os filhos estejam com celular para que possam se comunicar.

Nos países em que celulares foram proibidos em escolas, a discussão foi a mesma. E eu entendo. Mas, por enquanto, pais e filhos têm sobrevivido.

Gente, lembre, não tinha celular na nossa época. Para ligar para casa no meu colégio, tínhamos que ficar na fila de um orelhão de ficha. Sobrevivemos. Não posso dizer que 100% sadios, visto que estamos aqui discutindo se aluno pode ou não filmar professor na escola. Opinião de uma madrasta e amiga de vários professores: claro que não. Professor é professor. Você respeita. E, se reclamar, vai para a sala do diretor. E não filma o diretor! Sim, eu recebi um video por WhatsApp onde um aluno fazia isso…

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.