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Nina Lemos

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Roupa x violência sexual: uma discussão mais atual do que nunca

Nina Lemos

16/11/2018 04h00

"Ah, mas quem mandou usar essa roupa? Ela estava querendo". "Sei, sai com uma roupa dessas e depois reclama quando é assediada." Isso parece conversa antiga, pelo menos de 20 anos atrás, certo? Afinal, todo mundo já sabe que mulher usa a roupa que quiser. Que roupa não é convite. A culpa da violência nunca é da minissaia e se usamos uma roupa sexy é… apenas porque estamos afim de usar uma roupa sexy, certo? Não, não muita gente não sabe e ainda é preciso repetir.

Novembro de 2018. A questão "se estava usando essa roupa, provocou", está mais forte do que nunca. Essa semana, enquanto discutíamos o vestido curto usado por Claudia Leitte (que segundo Silvio Santos o deixou "excitado"), mulheres protestaram na Irlanda contra uma juiza que usou uma calcinha fio dental de renda como prova para absolver um homem acusado de estupro.

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Em nenhum momento estou chamando Silvio Santos de estuprador, que fique claro! Mas, como já se falou e se repetiu essa semana, roupa não é justificativa para "ouvir gracinhas". Se usamos um vestido curto fazemos isso só porque… estamos com vontade de usar um vestido curto.

Isso não é um consentimento

O caso da menina estuprada na Irlanda é escandaloso. E, não sem motivo, virou comoção mundial. Sim, a juíza teve a coragem de exibir em pleno tribunal uma calcinha de renda, usada por uma menina de 17 anos, para "provar" que o sexo foi consentido. "Afinal, por que ela usaria uma calcinha dessas?". Ódio.

Muitas mulheres sentem a mesma revolta que sinto enquanto escrevo esse texto. Essa semana, centenas de moças de todas as idades foram para as ruas da Holanda carregando calcinhas coladas em cartazes junto com a frase "isso não é consentimento."

Hoje, o movimento se espalha pelo mundo. Mulheres de todo o planeta postam fotos de suas cacinhas em redes sociais seguidas pela tag #notaconsent (não é consentimento) em protesto contra o julgamento.

Ao mesmo tempo, políticos irlandeses e entidades pelo direito das mulheres pedem que não seja mais permitido exibir a roupa que a vítima estava usando em casos de estupro e também de assédio. Faz TODO sentido.

No início desse ano, uma exposição chamada "O que você estava vestindo?", realizada em Bruxelas, na Bélgica, exibiu réplicas de peças de roupa que vítimas de assédio e estupro usavam quando foram atacadas. Entre as peças, calças, pijamas… tudo para provar que a roupa não tem conexão com agressão e que fazer essa pergunta para uma vítima é estúpido e ofensivo.

É triste que iniciativas desse tipo ainda sejam necessárias e que a gente ainda tenha que repetir uma coisa dessas: mas usar uma calcinha sexy não é um sinal de que queremos sexo, e o fato da menina usar uma NUNCA poderia ser usado para tentar culpar vítima. A culpa não é da menina, que escolheu "a calcinha errada".

Roupa nunca é consentimento para nada. Nem para assédio, cantada tosca e, claro, JAMAIS para um crime bárbaro como é o estupro… Que o caso da adolescente irlandesa pelo menos sirva de alerta…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.