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Nina Lemos

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Mulher multitarefa não existe. Vamos parar de acreditar nesse mito?

Nina Lemos

21/11/2018 04h00

 

iStock

Acontece com a maioria de nós, mulheres: trabalhamos, ao mesmo tempo, acalmamos um filho e fazemos uma piada para melhorar o humor do marido/namorado. Ao mesmo tempo, postamos uma opinião política no Twitter, consolamos uma amiga e decidimos o que vamos jantar. Fazemos tudo isso ao mesmo tempo. "Tem mais coisa para eu fazer? Pode mandar que eu pego!", respondemos, nos achando super heroínas e deixamos escapar orgulhosas: "é que eu sou mulher, sou multitarefas, consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo."

Nos gabamos disso enquanto a tinta do cabelo escorre (sim, é normal para a gente, pelo menos para quem trabalha em casa, trabalhar enquanto pinta o cabelo) e mancha o computador. "Sei fazer várias coisas ao mesmo tempo." Deixa Comigo!

Na verdade, desculpem a sinceridade, mas quando nos vendemos por aí orgulhosas como multitarefas, acho que estamos sendo meio otárias (e falo, principalmente, para mim mesma).

Aceitamos esse rótulo. E por isso nos sujeitamos de bom grado a fazer mais do que deveríamos, nos estressando, tendo ataque de ansiedade, estresse etc.

Achei que somos ainda mais bobas quando descobri que o mito da mulher multitarefas não passa de uma mentira. Sim, uma pesquisa realizada mês passado em Harvard concluiu que as mulheres não são mais multifuncionais que os homens. Sim, escanearam cérebros de homens e mulheres, compararam atividade cerebral e concluíram que temos a mesma capacidade que eles de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. E essa capacidade humana ainda é pequena…

Mas o mundo (e a gente mesma) cai nessa de que temos essa habilidade mágica, tipo "A Feiticeira", uma personagem de TV dos anos 70 que era perfeita dona de casa e ainda tinha dons de feitiçaria.

Esse seriado é datado, claro, afinal, a maioria de nós não cuida só da casa. Em geral, trabalhamos fora e dedicamos duas vezes mais horas aos trabalhos domésticos que os homens, conforme concluiu pesquisa realizada pela UERJ ano passado (multitarefas, lembram?).

E no trabalho, como temos mil e uma utilidades, tipo um Bombril, muitas vezes nos ocupamos de funções que não são nossas.

Criadora e secretária

Lembro que fiquei chocada quando li outra pesquisa, no caso, uma que dizia que mulheres (além de ganhar menos que os homens), também ficavam com menos no que diz respeito ao "glamour" na hora do trabalho. Conversei com amigas e concluímos que muitas de nós já tínhamos passado por situações bizarras na firma justamente por termos essa fama de faz tudo ao mesmo tempo.

Por exemplo, uma amiga, roteirista premiada, costuma ser designada no trabalho para "tomar nota do que é dito nas reniões" "Um dia perguntei para eles: e se eu não anotar, o que vai acontecer?", ela me disse. Os colegas, todos homens, não responderam.

Ouvi também histórias de redatoras criativas que ficaram responsáveis por passar a limpo o trabalho de colegas que tinham a mesma função (e salário) porque os gênios criativos não tinham a habilidade de mandar direitinho um trabalho e enviavam por mensagem de celular. Fácil a vida desses folgados, né?

E fácil porque muitas vezes nós deixamos. Então, vamos dizer não. E aprender de uma vez por todas que não nascemos com esse poder mágico de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não temos vários braços, por mais que insistam nisso. Não somos mulher polvo (olha os bichos com que nos comparam!). E, quando carregamos o mundo nas costas, acabamos travando a coluna.

Multitarefa? Esse termo só cabe para eletrodomésticos. Vamos aprender de uma vez por todas!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.