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Nina Lemos

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Mulheres preferem trabalhar com outras mulheres. Por que será?

Nina Lemos

09/12/2018 04h00

Foto: Getty Images

"Mulheres se sentem mais tranquilas trabalhando com outras mulheres do que em um ambiente muito masculino". Quando li essa notícia, baseada em uma pesquisa realizada pela Universidade americana British Columbia, acendeu na minha cabeça aquela luz do: eu já sabia! Nada contra os homens no geral (mesmo, tive e tenho colegas ótimos) e caráter não tem gênero. Mas, claro, óbvio que mulheres peferem trabalhar com outras mulheres. Por quê? Oras, porque grande parte de nós não é sadomasoquistsa e por isso prefere trabalhar em ambientes onde sabemos que não vamos ser ignoradas, interrompidas e ainda tomar aulas de como exercer nossa função (com alguém que exerce outra totalmente diferente).

Claro que não são todos os caras que são assim, mas, graças aos chatos adeptos do "mansplaining" (homem expicação) e do manterrupting (mania de certos homens de interromper mulheres) pegamos trauma. Por isso, quando vamos fazer um trabalho e a grande maoria dos nossos colegas são homens, ligamos para amigas e desabafamos: "Cara, só tem homem, não vai ser fácil". Já vamos prepararadas para ter que gritar em reuniões para sermos ouvidas. E, quando conseguirmos, depois de uma hora com o braço levantado na sala de reuniões, sermos interrompidas por alguém com voz grossa.

Não é nada pessoal, repito. Mas, como em muito casos, os caras legais (que são muitos), acabam levando a fama por causa de malas "sabe-tudo" que vivem nos explicando coisas que já sabemos.

Por isso, se um colega fizer coisas como interromper uma mina no escritório, você, cara legal, também pode falar com ele para parar com esse tipo de comportamento insuportável. Vai ser bom para todos. Ajudem-nos a dar limites.

Um exemplo pessoal. Sendo repórter, mais de uma vez já trabalhei com fotógrafos que, simplemente, decidiram se meter na entrevista que eu fazia. Sério, já fui interrompida mutas vezes na minha própria entrevista por sujeitos que, sem a menor cerimônia, começaram a fazer perguntas para o meu entrevistado. Já aconteceu, inclusive, no fato do entrevistado ser homem, dos dois esquecerem que eu estava ali e começarem a bater papo entre eles. Eu juro.

O tal estudo americano, que entrevistou quase 5.000 pessoas, concluiu também que os homens se sentem mais felizes trabalhando com mulheres. Por que será? Por que podem nos dar palestra à vontade sobre a nossa especialidade sem serem especialistas? Por que, além de fazer nosso trabalho, também sempre nos oferecemos para passar um cafezinho? Desconfio que muitos preferem trabalhar com mulheres porque também não aguentam os "homens explicação".

O mito da competição feminina

Curioso que essa semana eu conversava sobre o mito de que mulher sempre compete com mulher, uma das maiores fake news que espalham sobre nós há séculos. Já foi provado, inclusive por outras pesquisas, que isso não é verdade. Mulheres trabalhando juntas, na maoria das vezes, são cúmplices e companheiras. Claro que não são todas. Repito, caráter não tem gênero. Mas a vida real não é, pelo menos na maioria das vezes, como o livro e o flme o "Diabo Veste Prada", onde uma chefe má humilha as moças que, por sua vez, competem entre si. Sim, isso até acontece. Mas acontece com homem também…

Mas o mito é tao espalhado que tenho certeza que algumas mulheres estão lendo esse texto e pensando: "Mulher não presta, nossa, odeio trabalhar com mulher". Triste, mas acontece muito.

Homens e mulheres trabalhadores de firmas, uni-vos! Vamos calar juntos os "homens explicação" e os que interrompem e fazer o trabalho melhor para todos. Bora!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.