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Nina Lemos

Nina Lemos

O que é trabalho emocional e por que ficamos tão cansadas no Natal?

Nina Lemos

2022-12-20T18:04:00

22/12/2018 04h00

Foto: Getty Images

Confesso que nunca tinha ouvido esse termo: "trabalho emocional", ou "emotional labor", em inglês. Eu achava que eu fazia coisas como: me preocupar com toda a minha família (e tentar cuidar deles mesmo morando em outro país), dar conselho para amigos e amigas, cuidar deles. E, claro, ser terapeuta do meu marido, porque isso era uma espécie de dom. "Fiz muita análise, tenho dom para isso", foi o que sempre pensei.

Até que me deparei com uma reportagem sobre isso. Pesquisei sobre o assunto. E, sim, existe um termo e vários estudos sobre essa hora extra terapêutica desempenhada por nós, mulheres.

Os estudos mostram que a maioria dos cuidados emocionais (sejam no trabalho, com a família, amigos, ou seja, com todos que estão à nossa volta) é elaborado por nós, mulheres. "Nossa, então é isso", exclamei, enquanto me sentia realmente cansada, como me sinto em todo fim de ano.

Tenho certeza que as mulheres que têm filhos e moram perto da família estão mais exaustas do que eu. Provavelmente, elas que vão decidir (com outra mulher) que horas vão passar na casa dos avôs paternos ou maternos. Vão comprar todos os presentes, até o da mãe do marido. Decidir o que vai ter na ceia. E vão, claro, se preocupar para que ninguém brigue. Se rolar uma treta de família, provavelmente elas vão mediar. Assim como cuidarão se um diabético estiver comendo muito açúcar ou se alguém dirigir bêbado.

Cuidar das pessoas é com a gente mesmo! E não, não venham com esse papo de que é biológico. É construção social mesmo. Tanto que somos ótimas professoras, assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras, cuidadoras de idosos. Essas, ainda são, e muito, profissões de mulheres (ou de gays que, pela minha experiência, em muitos casos também executam muito o trabalho emocional).

Não acho que temos essas carreiras ou cumprimos essas horas extras como cuidadores porque nascemos com essa habilidade. Acho que é o que a sociedade espera da gente.

Desde pequenas somos criadas assim. Nos acostumamos. No caso dos amigos gays, isso também acaba sobrando para eles. "Não tem família, pode cuidar da mãe" (e os que adotam filhos, na maioria das vezes, cuidam, também, da mãe). Enquanto isso, os homens héteros (desculpem a franqueza e a generalização) muitas vezes dão perdido porque "estão superocupados", deixando os cuidados para a esposa, o irmão gay, a irmã. E acabam recebendo cuidados dessa turma toda pronta para ajudar.

Workaholic Emocional

Confesso que estou cansada, mas também não vou mudar. São tantos anos fazendo trabalho emocional que eu me apeguei e gosto de fazer. Não saberia viver de outro jeito. Mas, sim, cansa. E é difícil explicar que, às vezes, estamos acabadas porque, além de trabalhar, nos preocupamos com a amiga deprimida, ligamos para o amigo que perdeu o emprego, trabalhamos, nos oferecemos para ajudar uma amiga com filhos pequenos que precisa sair.

Nessa época do ano, de tão sobrecarregadas, parecemos zumbis vagando em shoppings. Quantas vezes na vida eu já vi mulheres da minha família que, na hora da ceia, nem conseguiram aproveitar nada?

Apesar de saber que nunca vou deixar de cumprir minha cota de trabalho emocional do mundo, acredito que devemos começar a colocar limites. Não é fácil. A maioria das mulheres que eu conheço já fez terapia (ou faz) e, as casadas ou com namorado, vivem dizendo para seus maridos "vocês deviam fazer análise". Deviam mesmo, assim talvez a gente não precisasse ser analista deles, né?

Eu, workaholic emocional, sou um caso extremo. Por isso, preciso acabar de escrever esse texto, falar com uma amiga que foi xingada na rua por motivos políticos, trocar um presente em uma loja lotada e comprar um presente para a Doris, que vem amanhã fazer faxina.

Cansa. Muito. Vocês sabem como cansa… Boa sorte para a gente neste fim de ano…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.