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Nina Lemos

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"Menina usa rosa e menino usa azul"? Em que ano a ministra Damares está?

Nina Lemos

03/01/2019 13h48

A cor da roupa importa? (Foto: iStock)

"Menina usa rosa! Menino usa azul!" A frase foi repetida várias vezes, em clima de comemoração de torcida de futebol, pela Ministra dos Direitos Humanos Damares Alves, no dia da sua posse, na quinta-feira. Um vídeo que circula pela internet a mostra empolgada e avisando: "Essa é uma nova era: Menina usa rosa! Menino usa azul!" Aplausos dos apoiadores em êxtase.

Espera.  Nem as crianças que eu conheço gritariam isso. Mas era uma ministra. E, pelo jeito, ela estava falando sério.

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Rosa? Azul? Tanto problema no mundo e estão preocupados com isso? Por quê? Ah, porque menina tem que agir como menina, chega dessa palhaçada! Já foram longe demais, eu, hein! Não pode cortar o cabelo curto, tem que ser longo e bem penteado. E os meninos, eles que não chorem. Chega de meninos sensíveis. Homem não chora!

Esse pensamento é uma volta aos anos 50 inusitada. Essa ideia existia para os pais mais conservadores 70 anos atrás. Ou no século XIX, quando mulheres usavam espartilhos, não podiam escolher seus maridos nem votar.

Daqui a pouco, essas pessoas vão promover um revival da boneca Amelinha, um sucesso no passado. A Amelinha da Estrela era inspirada na música Amélia, aquela que era mulher de verdade porque não tinha a menor vaidade e nunca reclamava. A boneca vinha com um ferro de passar e um tanque. Porque, claro, mulher merece um tanque de roupa, lugar de mulher é na cozinha.

Bem, há tempos nossas mães queimaram sutiãs, foram para a rua, protestaram. Nós também protestamos. O mundo mudou. Amelinha hoje é apenas uma piada. Quer dizer, por enquanto.

Sobre as cores, bem, as crianças gostam das cores que elas quiserem, não?  Cores não querem dizer nada, absolutamente nada. É gosto. Lembram do ditado, "o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?" Pois é.

Não tenho filhos, mas tenho sobrinhos, enteados e afilhada. Muitas meninas têm, sim, a fase rosa. Elas só querem roupa dessa cor. As mães nem aguentam mais tanto princesismo. Mas depois passa. E tem menina que gosta de azul. Fim. Nunca na vida vi uma mãe ficar preocupada porque o filho gosta de rosa ou porque a filha gosta de azul.

Alô, Terra, 2019!

E não, eu não moro em outro planeta. Eu moro no planeta Terra, no ano de 2019. Aqui, cada vez mais as marcas lançam roupas de crianças (e para adultos também) unissex. O mesmo acontece com os brinquedos. Os adultos, cada vez mais, querem que suas filhas brinquem também de engenheira (por que não?), e que seus filhos brinquem de comidinha também, claro. Óbvio. Não?

Aqui no planeta Terra em 2019, tenho amigas que tem filhos que gostam de usar saias. Eles são crianças pequenas. O que as mães fazem? Ué, deixam! Qual o problema?

Na Alemanha, país onde moro, foi lançada, como noticiei, aqui, uma cartilha chamada "Murat brinca de princesa, Alex tem duas mães e a Sophie agora se chama o Ben" para falar sobre gênero e evitar o bulling nos jardins de infância. E não, a Alemanha não é um país louco, comunista. Não. A Alemanha é uma potencia mundial. Uma democracia.

Vocês podem achar isso demais, tudo bem. Cada um pensa de um jeito e isso é ótimo. Ninguém é obrigado a querer conversar com seus filhos sobre mudança de gênero. Nenhum problema. Mesmo.

Agora, voltar tantas casinhas ao ponto de achar que existe cor de menina e cor de menino? Não! Aqui do planeta Terra, imploro: deixem nossas crianças em paz. Viva todas as cores, até Flicts. Nunca leram esse livro do Ziraldo? Pois leiam!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.