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Nina Lemos

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Paula do BBB 19: a perfeita tradução da lacradora privilegiada e mimada

Nina Lemos

2018-02-20T19:04:00

18/02/2019 04h00

 

(Foto: Reprodução)

 

"Eu acho você uma chata". "Eu também sofro racismo, sofro racismo porque sou loira. As pessoas acham que loira é burra". "Meu cabelo é ruim."

Essas são algumas das frases de Paula, a participante "polêmica" do BBB 19. Polêmica entre aspas mesmo porque Paula parece ser o exemplo perfeito de um tipo de gente muito em voga em tempos de redes sociais (mas que, na verdade, sempre existiu): o "Eu falo mesmo", ou a lacradora mimada. A pessoa tão engraçada que é incompreendida. Oh, coitada!

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O portador da síndrome do "eu falo mesmo" é aquele tipo que faz piada de mau gosto, não está nem aí se magoar alguém! E claro, essas pessoas sempre têm uma desculpa: elas são sinceras. Existe liberdade de expressão, pelo amor de Deus! Hoje em dia não se pode nem falar nada que essa gente logo vem com "mimimi" (contém muita ironia).

Paula, que no momento pode ser julgada por intolerância religiosa, devido a seus comentários sobre religião de origem Africana, "mitou" quando disse a seguinte frase: "eu sou negra".

Escuta. Paula é uma advogada de 28 anos, loira de olhos azuis. E ela tentou argumentar que era negra para participantes negros do BBB. Sim. Ela fez isso. E não, ela não faz a mínima questão de ter noção.

Paula sabia que o que falava era um absurdo? Acho que para ela isso não importa. Ela parece fazer parte de um grupo de pessoas que, de tão privilegiadas, acham que não devem nada a ninguém. Contrário: a moça parece se deliciar com o fato de causar: "Ai Deus, por que eu faço isso? A Globo vai ser processada de tanto bullying que eu estou fazendo no programa. Eu sou terrível. Mas não é por maldade, é que é legal, acho engraçado", disse ela em uma das passagens do programa.

Espera, a pessoa tem noção, então, que faz bullying, magoando as pessoas, mas continua fazendo isso só porque acha engraçado? Quanta arrogância, não? Paula parece com aquela amiga vencedora que tínhamos na escola (a minha chamava Adriana) e vivia esculachando todos. Ela era linda, loira, e se sentia autorizada a isso. Ela podia QUALQUER COISA.

Não, ninguém pode tudo. E meninas mimadas como Paula parecem ainda não ter entendido isso. Pelo contrario, rindo, debochando, acabam ganhando likes, "mitando."

Em um texto sobre o BBB, ela é chamada de "vilã afrontosa". Afrontosa, veja bem, é uma expressão que costuma ser positiva, usada para mulheres provocadoras (no bom sentido). Mas, espera, sair literalmente afrontando as pessoas, humilhando, não pode ser considerado uma coisa legal.

O mundo estás cheio de Paulas. Mas se uma delas for sua amiga, um conselho: se afaste. Ninguém precisa de alguém que ria da sua dor, que ache que é legal brincar de bullying. E para quem age assim, um recado: existe lei e opinião pública. Racismo, por exemplo, é crime. Intolerância religiosa também. "Que mundo chato", elas murmuram. E ainda nos chamam de recalcadas, ou de invejosas.

Se existe esperança? Claro, as pessoas crescem. Paula, como as outras que agem como ela, podem aprender que humilhar e ter atitudes racistas (são os negros que estão falando e o primeiro passo deve ser escutá-los) não é legal. Ou podem não aprender. Mas aí é problema delas…

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.