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Nina Lemos

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"O feminismo é um machismo de saias". Até tu, Papa Francisco?

Nina Lemos

2023-02-20T19:16:28

23/02/2019 16h28

(foto: Vincenzo Pinto/AFP)

"O feminismo é um machismo de saias". Ok, a gente já ouviu muitas vezes essa bobagem por aí. Está cheio de homem desavisado (e mulher também falando isso tipo… no Twitter). Mas não esperávamos ouvir isso dele, o Papa Francisco, um líder de opiniões progressistas, que já disse que Igreja perdoa mulheres que fizeram aborto, recebeu gays e transexuais para conversar e vive dando declarações favoráveis aos direitos das mulheres.

O Papa é pop. É humanitário. Como não gostar dele? Mas, vixe, que decepção. Como assim, Vossa Santidade? Até o senhor?

Ao dizer, em um encontro em que debatia o espinhoso tema da pedofilia, que "todo feminismo é um machismo de saias" o Papa Francisco usou um clichê repetido por muitos por aí: "Feminismo e machismo são a mesma coisa." "O feminismo quer separar os homens das mulheres" etc etc etc.

Quem sou eu, quem somos nós, para ensinar algo para o Papa? Mas, bem, talvez ele devesse dar uma lida por aí, ou uma conversada com mulheres amigas para entender que NÃO É ABSOLUTAMENTE NADA DISSO.

O feminismo não é, como muitos pensam, a ideia de que as mulheres são melhores que os homens e por isso devem ter privilégios. Não achamos que chegou a nossa hora de nos dar bem, por isso devemos ter mais acesso que os homens ao trabalho, ganhar mais que eles, que passarão a fazer jornada tripla no nosso lugar. Basicamente, o feminismo não é uma competição de homens x mulheres!

Vamos repetir, para o Papa e para quem mais quiser ouvir: o feminismo é sobre ter os mesmos direitos. É sobre não ser assassinada (seis mulheres morrem assassinadas a cada hora no mundo vítimas de feminicídio) . É sobre acabar com essa cultura da masculinidade tóxica (homem não chora, homem se é traído é corno, homem tem que dar no coro etc, homem, em nome da honra, pode até matar). É sobre não carregar o mundo nas costas sozinha, é sobre poder fazer suas próprias escolhas (coisas a que todos os seres humanos devem ter direito, independente do gênero ou orientação sexual, óbvio, não?).

E é também sobre coisas que parecem pequenas, mas são sérias, como poder andar na rua em paz sem que alguém passe a mão no seu peito aos 13 anos e… já que o Papa está falando sobre pedofilia, como ignorar o que as meninas passam? Sim, quase todas as mulheres que eu conheço (eu incluída) em países machistas como o Brasil já sofreram assédio quando tinham seus 11, 12 anos. Sim, quando eram CRIANÇAS! O nome disso, além de abuso, não é pedofilia?

Já o machismo, bem, ele é um comportamento que não faz bem para ninguém, nem para os homens. Muito menos para seus filhos e sua família. Machismo mata, causa abuso, estupros e violência. Além, claro, de desigualdade. Como o Papa não sabe disso?

O Papa ama as mulheres

Mas sabe o que é ainda mais surpreendente? O mesmo Papa que disse que o feminismo é um machismo de saias já deu várias declarações… feministas.

Sim, ele já condenou a mutilação genital, a violência doméstica e já disse que as mulheres precisam ter mais espaço e poder na Igreja (ou seja, ele pensa como a gente!).

Em 2018, o Papa chegou a escrever uma carta para uma mulher vítima de violência domestica que teve o rosto desfigurado após ser ataca com ácido por seu marido.

Ou seja, parece que o Papa condena as mesmas coisas que as feministas, ou quase as mesmas.

Não estou aqui para ensinar o Papa a rezar missa, longe de mim. Acho que Francisco não sabe, mas, no fundo, pelo menos um pouco feminista ele é. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.