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Nina Lemos

Nina Lemos

O que aprendi como imigrante: ninguém se arrisca a ser ilegal sem motivo

Nina Lemos

2020-03-20T19:04:00

20/03/2019 04h00

Manifestação na Alemanha contra deportar pessoas (Foto: Maja Hitij/Efe)

 "A maioria dos imigrantes não têm boas intenções." Eu, imigrante, acordei e vi que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, deu essa declaração nos Estados Unidos, em entrevista a Fox News. Ele não falava de mim, mas de imigrantes ilegais que entram nos Estados Unidos.

No dia anterior, o governo disse que cooperaria com o FBI para deportar imigrantes ilegais brasileiros. E, como se não bastasse, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que imigrante ilegais eram uma vergonha para o Brasil.

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Bem, eu não sou imigrante ilegal. Moro na Alemanha com um visto de residência. Pertenço a uma categoria privilegiada que imigrou por escolha. Sei que posso voltar para o meu país se eu quiser. E sou ainda mais privilegiada porque sou casada com um alemão. Ou seja, posso trabalhar, estudar, fazer o que quiser aqui. Tenho quase os mesmos direitos que um alemão.

Mas quando a gente é imigrante, fica mais sensível, claro, às questões que envolvem o nosso grupo. Somos uma categoria. Por mais que a gente se chame de "expat", ou outro nome hipster para aliviar a situação, é um imigrante. E sofre as consequências disso (por mais privilegiado que seja): somos escória da sociedade no país para onde imigramos. Sofremos preconceito e esbarramos mais na burocracia. Mas tudo bem.

Os imigrantes ilegais pertencem à outra categoria, pelo tratamento que recebem — que é ruim. Eles não são tratados como pessoas muito corajosas que saíram de seus países em busca de segurança, para escapar de guerras e… como, no caso dos brasileiros nos Estados Unidos e na Europa, em busca de dinheiro. São imigrantes econômicos, pessoas que querem uma vida melhor, que trabalham duro (na maioria dos casos para mandar dinheiro para a família no Brasil, inclusive). É triste que uma pessoa tenha que sair do seu próprio país para conseguir dinheiro em outro? É tristíssimo. Mas não podemos falar que a culpa seja do imigrante, certo?

Eu não moro nos Estados Unidos, mas tenho um primo que mora. Quando o visitei, conheci imigrantes ilegais. Eles trabalhavam em uma cozinha de um restaurante chinês e moravam em quartos divididos com várias pessoas. Um deles, depois de vários anos lá e já em uma situação melhor, tinha até carro, foi me buscar no aeroporto e me levou para cima e para baixo naquela viagem, cuidando de mim. Ele, pessoa honesta, querida e trabalhadora. Não era uma vergonha para o país, mas um orgulho.

Na Alemanha, onde moro há quatro anos como imigrante, conheci várias pessoas em situações terriveis. Uma das coisas boas de ser um imigrante é que quando você é um, você conhece outros, você sai da sua bolha, e tem contato com um mundo horrivel, de muitas injustiças. Mas isso te faz ser solidário e olhar para os outros imigrantes com empatia.

Levada para o aeroporto algemada

Uma das histórias mais tristes que conheço é de uma mulher africana, que vou chamar de D.. Ela tem 45 anos e já sofreu duas tentativas de deportação. Já acordou com a polícia na porta de casa, foi levada para o aeroporto algemada, no inverno, praticamente nua. É uma mulher honesta, trabalhadora. Não tem documentos, não pode ter um trabalho formal, mas precisa (e quer) trabalhar, por isso faz faxina. Ela não é uma vergonha, mas uma das mulheres mais fortes que já conheci.

Outro foi o F., meu colega de aula de alemão. Ele também vinha da África, onde nunca estudou. Tinha muita dificuldade para ler, mas era um dos estudantes mais aplicados da aula.  Para chegar na Alemanha, ele veio em um container de um navio, onde colocaram soro, para que eles não morressem de fome. Na Grécia, foi atropelado, fugindo da imigração, quebrou a perna em vários lugares, passou meses internado.

Na época em que convivi com o F., ele algumas vezes dormia na rua (porque a imigração estava atrás dele), no inverno de -5. Contava tudo isso para a gente meio rindo. Quando ele sumia por uns dias, temíamos que tivesse sido deportado.

Vocês acham que a D. e o F. passavam por tudo isso por escolha? Você acha que meu amigo dos Estados Unidos trabalhou anos em uma cozinha por mais de 12 horas por dia, vivendo em condições péssimas (e com medo de ser deportado)… por que ele gostava de viver assim?

Não, ele tinha um propósito de melhorar de vida (e melhorar a vida da sua familia no Brasil também). E ele conseguiu. Vergonha de uma pessoa batalhadora dessas? Como?

Claro que é contra a lei. Nunca fiquei um dia sequer ilegal na Alemanha e isso é uma coisa que eu não recomendaria para ninguém (além de ser contra a lei, é perigoso).

Mas não acho que a maioria dos imigrantes ilegais vivam nessa situação por escolha. Tipo: "ah, vou ficar ilegal, to nem aí, que bacana". Tudo que um imigrante ilegal quer é ser legalizado, ter seus papéis, seus direitos, documentos. Já pensou viver sem documentos? Que coisa horrível? Pois é assim que os imigrantes ilegais, pelo menos na Alemanha, vivem.

De novo. Não estou defendendo aqui que ninguém aja contra a lei. Agora, deportação, por exemplo, é desumano. Quem escolhe viver com um risco desses? Será que é escolha ou falta de condições para viver em seu próprio país? Se uma pessoa não tem emprego, a gente pode julgá-la por ir tentar a sorte em outro lugar?

Como dizem os ativistas pelos direitos dos refugiados na Alemanha: imigração não é um crime (ou melhor, não devia ser). E, claro, como é sempre bom lembrar: "nenhum ser humano é ilegal". Somos humanos. O que merecemos? Uma vida digna. Só isso.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.