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Incêndio na Notre Dame em memes: a geração que transforma tudo em piada

Nina Lemos

17/04/2019 04h00

Segunda-feira (15), quando as chamas consumiam a Catedral de Notre Dame e o mundo reagia com choque, uma amiga comentou o fato, chocada e triste, em um grupo de WhatsApp. Compartilhávamos o mesmo sentimento: tristeza, luto, angústia. Cinco minutos depois, entrei no grupo.

Minha amiga estava quieta, enquanto outras pessoas faziam piadas sobre o incêndio, tinham ataques histéricos de memes, GIFs e "Kkkk". A gente nem sabia ainda se tinha vítima do incêndio, mas ele já tinha virado piada.

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Sim, em 5 minutos, conseguiram transformar a tragédia em concurso de memes. Talvez seja choque geracional.

A geração Y (ou millennials), como são conhecidas as pessoas que hoje tem entre 20 e 30 e poucos anos é reconhecida por essas características: o humor, o cinismo, um certo "não me importo" e a uma ironia diante de tudo do estilo "não me abalo", "Não levo nada a sério, quem leva é chato."

Claro que não estou falando de todas as pessoas dessa geração, óbvio. Algumas das pessoas que mais admiro hoje no Brasil são mulheres feministas e negras. Mas uma parte dessa geração, acho, tem esse traço: um humor blasé, um "não ligo" que choca essa integrante da geração X (aquela de quem tem entre 40 e 50 e poucos anos hoje).

A náusea

Quando eu era jovem, a gente achava chique sofrer (sim, éramos bobos, todos os jovens são). Lembro do meu amigo Xico Sá, que sempre diz que o filósofo Jean Paul Sartre acabou com a sua juventude. Ele morava em Recife e, em vez de ir à praia, ficava em casa deprimido lendo filosofia. Sim, éramos ridículos. Mas a geração que veio depois da gente não precisava radicalizar tanto e banir o sofrimento da vida.

Depois de ver o concurso de memes no grupo de WhatsApp, fui checar no Twitter. Pronto: lá estavam, as piadas, os memes, tipo um concurso de quem era mais engraçado mais rápido.

Eu adoro um meme (mesmo), principalmente quando eles têm graça. No caso, não tinham. E sei também, que transformar tristeza em meme é uma maneira aceitável de lidar com a dor. Mas que pode também banalizá-la totalmente.

"Quando você começa a fazer piadas em uma hora dessas, você dá um jeito de se blindar e não lidar com a perda", comentou minha tia psicanalista, que assistia em choque comigo as imagens do Notre Dame em chamas pela TV.

Um parênteses necessário. A tragédia que é a destruição da Notre Dame não tem a ver com a religião. As pessoas normais se comoveriam com a destruição das pirâmides, da Muralha da China… Estamos falando de patrimônios da humanidade.

Ano passado, quando o Museu Nacional queimou, foi o mesmo, muitos riram. "Nossa estão chorando por causa de um museu?" Queimou? Constrói de novo, diziam os millennials, com aquela arrogância de achar que tudo pode ser reconstruído (não, não pode. A Catedral nunca vai ser a mesma, a dor vai ficar lá).

Na hora do incêndio, no Trend Topics do Twitter, depois de Notre Dame, estava "Quasimodo". Como? Sim, as pessoas estavam obcecadas em falar sobre o "Corcunda de Notre Dame". E não, não era o personagem de de Vitor Hugo, mas o do desenho da Disney. E centenas de milhares de piadas, memes, imagens, GIFS, com o personagem da Disney eram feitas por segundo.

Repito: eu adoro um bom meme. O que acho problemático é transformar tudo, absolutamente tudo, em piada. E não estou sozinha. Cientistas da Universidade da Loughborough, na Inglaterra, fizeram um estudo sobre como os memes podem influenciar na saúde mental dos adolescentes.

Segundo eles, um dos lados negativos dessa cultura é criar uma "falta de sentimentos", uma apatia. Deve ser essa doença que faz o mundo cair aos pedaços (a Catedral foi só a tragédia de ontem) e as pessoas continuarem sem sentir, apenas digitando emoticons e kkkkks. É triste, vazio. Ou, como eles diriam, dá preguiça.

Uma dica de uma "velha": sofrer pode ser bom. Sofrer faz parte.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos