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Nina Lemos

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Faxineira e influenciadora cria rede de empoderamento para diaristas

Nina Lemos

22/05/2019 04h00

 

"Às vezes eu tô no rolê e as pessoas me perguntam, o que você faz?, quando eu respondo que sou faxineira elas fazem cara de choque, como se ser faxineira fosse uma coisa ruim. Acho isso bizarro. Gente, é um trabalho que eu gosto". Quem dá a letra é Veronica Oliveira, faxineira com muito orgulho e criadora da página "Faxina Boa".

Lá, ela fala principalmente sobre empoderamento das diaristas e curiosidades do seu trabalho e rotina (como, por exemplo, o fato de seus clientes terem gatos com nome de comida e suas músicas preferidas para faxinar). E também defende da dignidade da profissão.

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"Às vezes vejo, por exemplo um publicitário achar que é melhor que eu. Como assim? Somos todos prestadores de serviço, tudo pejotinha", ri Veronica, que tem 38 anos, 2 filhos e hoje, além de faxineira, é uma influenciadora digital. Já fez parcerias com marcas como Bradesco, Youtube, Twitter, Google.

"A minha vida é engraçada, porque uns dias estou fazendo faxina e nos outros estou em uns eventos chiques e ainda ganho cachê", ela ri, ainda incrédula com todas as mudanças que aconteceram na sua vida nos últimos anos.

Ela também já faz publieditorial de produtos de limpeza, recebe mimos, "toda blogueirinha", faz presença vip em eventos.

Faxina e meme

Tudo isso era impossível de imaginar quando, determinada a largar a vida de assistente de telemarketing e com dois filhos para criar (um deles é autista), Verônica postou um anúncio no Facebook oferecendo seus serviços de faxina.

Corta para 2016. "Eu via uns anúncios de faxineiras no Facebook que eram muito tristes, muito para baixo, aí resolvi fazer umas coisas mais diferente, peguei pôsteres de umas séries e filmes que eu gusto, como "Kill Bill" e fiz montagens com as minhas fotos. Viralizou.

Hoje, tem seu próprio grupo de clientes escolhidos a dedo. "Prefiro trabalhar com jovens que me respeitam, que acabam virando meu amigos. Diria que a minha clientela é basicamente formada por hipsters", ela conta, lembrando que o trabalho não é tão difícil, já que a maioria mora em apartamentos pequenos e não têm filhos.

Ela faz três faxinas fixas por semana e outras ocasionais. Nos outros dias, dá palestras de motivação para estudantes e para funcionários de empresas. Tem assessor de imprensa, foto de divulgação e se prepara para lançar seu canal de Youtube.

Quando ela poderia pensar que isso ia acontecer?

Telemarketing e depressão

Veronica começou a fazer faxina depois de dez anos trabalhando com telemarketing. "Engravidei muito cedo. Fui mãe aos 17 anos. Aí, parei de estudar. Acho que o único emprego que tive na vida foi com telemarketing. Trabalhei 10 anos nisso. Era mãe solo, por isso, trabalhava de noite e minha filha mais velha tomava conta do menor durante o dia. Não ganhava muito, mas dava para pagar as contas e ter uma vida ok. A empresa pagava R$ 2,5 mil, mais plano de saúde e R$ 800 de ticket refeição. Até que a empresa faliu".

Isso aconteceu em 2015 e, depois de muito procurar um emprego no mesmo nível, ela se viu obrigada a aceitar um em que ganhava R$ 1000. "Para cada filho, era descontado R$ 100 por causa do plano de saúde. No final, ficava com R$ 700. Como eu iria pagar aluguel assim?"

Nesse período, ela perdeu a casa, foi morar em uma ocupação na Zona Leste. "Era muito precário. Um cortiço de madeira. A gente dava o dinheiro na mão de uma senhora, até hoje não sei quem é o dono de lá." A falta de dinheiro, de casa, fez com que ela tivesse depressão, síndrome do pânico e tentasse se matar. Hoje, enxerga esse período terrível com humor. "Eu fiquei me segurando no trabalho, mesmo mal, por causa do seguro de saúde, o que acabou sendo bom, porque fui internada em uma clínica particular ótima."

Saiu da clínica bem, medicada e, um dia, visitando uma amiga, começou a limpar a casa dela. "No fim, a minha amiga me pagou R$ 150 e pensei que podia viver disso e não voltar para o telemarketing nunca mais!"

Começou a atender amigos, até que fez o anúncio no Facebook e sua vida mudou.

Há seis meses, tem agência que cuida dos seus contratos. "Eles me impedem de fazer burrrada, porque já fechei contrato por valores ridículos, que eram tipo 800 vezes menores do que devia ter cobrado. Ainda fico muito impressionada com os valores".

Com a faxina e as palestras, Veronica conseguiu mudar de casa. Hoje, mora com o novo marido e os filhos em um apartamento em Itaquera. "Ainda moro na quebrada, mas é um apartamento bom, de dois quartos, com área de lazer para os meus filhos." Paga também a faculdade da filha, de 19 anos, e uma escolar particular para o filho. "Esse mês vou conseguir voltar também para o plano de saúde", comemora.

"Que horas ela volta?"

Mas não, a vida de Veronica não é um conto de fadas. "Uma vez fui na casa de um cara que não me deixou comer, como se eu fosse sujar os talheres da casa dele. Fiquei chocada. Mas chamei um iFood, a maior comidona. Quando tocou a campainha, falei para ele: é a comida que encomendei".

A outra história foi mais pesada. "Eu ainda morava no cortiço e fui fazer faxina na casa de uma senhora que tinha visto uma reportagem sobre mim na televisão e ela ficava falando: nossa, deve ser horrível não ter casa, né? Ficou me perseguindo, me chamando de lerda. Uma hora me mandou limpar a escada da casa com a mão e disse que passaria o dedo para checar se estava limpo. Fiquei trancada no banheiro chorando, com ela do lado do fora falando que eu ia me atrasar. Foi uma situação onde eu realmente me senti muito mal. Por isso, hoje prefiro ficar com meus clientes. Atendo principalmente mulheres, homens, só com indicação. São pessoas que pensam como eu, me respeitam."

Mesmo assim, tem contato quase diário com a situação de outras faxineiras. "Recebo relato de pessoas que trabalham 12 horas por R$ 70, é uma coisa absurda. E também de pessoas que se sentem mal por fazerem faxinas, nunca pensei que isso existisse, mas existe e muito."

Todas juntas

São com essas injustiças que ela quer trabalhar agora. Com o sucesso da página, ela já contratou uma outra faxineira para trabalhar com ela. "Cobro R$ 180, fico com R$ 30 e ela com R$ 150. Os aplicativos em geral cobram mais da metade das faxineiras, quero fazer uma plataforma para mulheres trabalharem assim, que seja justa, que as ajude."

Seu projeto não tem sido tão bem recebido pelas empresas que podem patrociná-los. "Já ouvi coisas do tipo, mas como assim você quer trabalhar sem explorar o outro? Você tem que pensar primeiro em você. Acredita que falaram isso para mim?"

Veronica pensa também em criar uma plataforma de formação para diaristas, em que elas possam ser profissionalizadas, saber quais são seus direitos, como cobrar. "Tenho que encontrar uma empresa que banque fazer isso comigo. Não quero cobrar das meninas, porque são pessoas pobres, que estão precisando."

Largar a faxina não está nos seus planos. "Fui convidada para trabalhar como Social Media em uma agência. Iriam me pagar R$ 4 mil. Falei que não, que com meu trabalho de faxina tinha tempo para tomar café da manhã com a minha família. E disse também que podia ganhar mais com faxina. Acho que se sentiram ofendidos por isso", ela conta. E solta outra gargalhada.

Alguém duvida que ela vá conseguir realizar todos esses projetos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.