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Nina Lemos

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Sonho: ter um hacker com superpoderes para justificar nossas mancadas

Nina Lemos

2025-06-20T19:04:00

25/06/2019 04h00

Foto: Getty Images

Príncipe encantado? Gênio da lâmpada? Não, meu sonho de consumo (e acho que de muitos) é um hacker para chamar de meu. Não estou falando de qualquer hacker. Meu plano não é invadir computadores e telefones dos outros. Queria um desses hackers com superpoderes, como os que apareceram no cenário político brasileiro nos últimos tempos.

Se você vive em Marte, eu explico. O site "The Intercept Brasil" vem divulgando vazamentos de conversas de Telegram entre o Ministro da Justiça Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol.  Uma das possibilidades, citadas por eles, é que as mensagens podem ter sido adulteradas por um hacker. Ou seja, esse seria um hacker especial, que, além de ter roubar mensagens de celulares e contas (algo condenável e criminoso, claro) poderia também alterar o conteúdos das mensagens. Ou seja, o hacker escreveria!

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Imagina que sonho. Se você faz um relatório chato no trabalho e erra, a culpa seria do hacker.  Erro na planilha de Excel? Mas quem errou não fui eu, foi o hacker que alterou tudo! Fez um trabalho para a faculdade e ele não ficou bom? Nenhum problema: só avisar para a professora que o texto foi alterado pelo hacker, mas que você não tinha percebido antes. Pode mudar essa nota aí!

Quem mandou a mensagem foi o hacker

Mas o que eu acho mais maravilhoso nesse hacker, e por isso gostaria tanto de ter um, é que ele poderia ser usado como justificativa para erros do passado: essas gafes online que todos cometemos. Sabe aquela mensagem que você mandou e se arrependeu? Não foi você, foi ele.

Seria excelente para um tipo de erro muito praticado em tempos de WhatsApp: postar mensagens em grupos errados (quem nunca?). Tenho uma conhecida que tem o hábito de mandar mensagens para o grupo de WhatsApp de família falando mal de algum parente que…  está no grupo de família! Isso já causou problemas e pânicos.

Isso acontece bastante. Uma amiga, por exemplo, já mandou mensagem falando mal de um membro do grupo para… o grupo. No caso, ela achou que tinha mandado para mim. Foram momentos de pânico.

Depois disso, criamos uma técnica: você começa a escrever várias mensagens sobre temas diferentes, faz todo mundo mudar de assunto, para ver se a mensagem errada se perde no meio das conversas. Costuma funcionar. Mas nunca se sabe. Com um hacker particular, tudo isso seria evitado. Era só falar: quem escreveu isso não fui eu!

Outra coisa que acontece bastante, principalmente para quem está em início de paquera, durante brigas com namorado/marido ou discussões de amigos (e outras situações tensas) é mandar uma mensagem e se arrepender. Você manda. Dois minutos depois, tem a certeza absoluta de que não deveria ter mandado. Isso pode ter consequências sérias, você pode romper amizades e até terminar um relacionamento. Agora, tudo se resolveria, claro, se você tivesse o hacker. Quando a pessoa responder, você diz: "Mensagem? Que mensagem? Não mandei nada! Foi o hacker!"

Dizem que postar na internet, tuitar e mandar mensagens bêbado é perigoso (imagino, mas nunca me aconteceu porque não bebo). Para os que bebem, escrevem um monte de coisas, publicam, capotam e acordam no dia seguinte com ressaca física e moral, essa também seria a desculpa perfeita. Bastaria postar no meio da ressaca: "Gente, um hacker escreveu umas coisas absurdas aqui".

Para minha utilidade pessoal, o hacker também corrigiria todos os erros que já escrevi em textos (quem nunca?). Se você achar um aqui, não fui eu, foi o hacker! E todos aqueles textos que escrevi no passado e acho que não fazem mais sentido foram escritos por ele, também. Esse é um texto de humor. Mas se você não viu graça nele, não tem problema. Quem escreveu não fui eu (e vocês já sabem quem foi).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.