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Nina Lemos

Na câmara: deputados dão aula de homem que interrompe e ignora mulher

Nina Lemos

05/07/2019 04h00


"Você não tem pulso!" "Você não tem pulso!" "Alguém encerra a sessão porque ela não tem pulso!" "Não sabe fazer, pede para sair!". Quem assistiu ao fim do depoimento do juiz Sergio Moro na câmara dos deputados essa semana, assistiu também, entre outras coisas, a uma aula grátis de:

  • Homem que interrompe
  • Homem que ignora
  • Homem que não escuta mulher 

Algumas daquelas coisas que nós, "chatas", reclamamos e queremos mudar estavam todas ali.  E o "manterrupting" (homem que interrompe) estava mais para homem que manda calar a boca mesmo.  

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A moça "sem pulso" era a deputada Professora Marcivânia, eleita, como eles, que presidia a sessão. Ela tentava, sem sucesso, fazer uma massa de homens que estavam gritando, se ofendendo e quase saindo no tapa a agir como adultos. Em vão. O que eles fizeram? Foram em bando para a mesa da presidenta, gritavam que ela tinha que encerrar a sessão. Atenção, quem estava no espaço de comando era ela. A decisão de encerrar ou não os trabalhos cabia a ela. Como não a escutaram, fizeram o quê? Ignoraram. "Está encerrada a seção", decidiram. E foram embora em bando levando o ministro Sergio Moro. 

Detalhe: os homens que acusavam uma mulher de "não ter pulso" e de "não dar conta" não estavam agindo de forma exemplar. Contrário.  Eles estavam agindo como integrantes de um circo  que durou cerca de sete horas e teve gente levantando cartaz, fazendo corinho, vaiando, carregando troféu usando uma fantasia. Sim, tudo isso aconteceu. E a "sem condições" era a mulher que tentava organizar a bagunça. É, faz sentido.. Só que não. 

Essa não é a primeira nem a única vez que esse tipo de coisa acontece nas esferas políticas do Brasil.  É só assistir pela TV por algumas para ver como nossos representantes tratam as mulheres.

Esse não é um comportamento que se restringe aos ambientes políticos, claro. Mulheres passam por isso no trabalho, com amigos, na família, na escola, na casinha de sapé.  Estamos tentando mudar isso. Muitos homens também, afinal, é um treino. Uma hora o cara percebe que faz isso por puro hábito. Muitos se esforçam. Mesmo. 

Mas não era para os ambientes de poder serem lugares onde os maiores exemplos desse tipo de comportamento acontecem. Não é por acaso que uma das expressões usadas no mundo todo para designar câmaras de deputados, vereadores e senadores é "casa dos representantes." Eles são, literalmente, nossos representantes. Pena que às vezes pareça que, nesses ambientes,  a maioria representa o que a sociedade tem de pior. No caso do jeito como as mulheres são tratadas, bem, a programação da TV Camara e da TV Senado devia ser proibida para crianças. 

Marielle já dizia

"Não vem me interromper agora, deputado! Não me interrompa! Não vou aceitar homem me interrompendo", essa frase chama atenção no último discurso de Marielle Franco na câmara dos vereadores, feito em 8 de março de 2017. Ela fala com o tom de quem já estava acostumada àquilo. E solta uma ironia: "homem fazendo homice (sic)."

Esse ano, e não estamos falando de partido, mas de um comportamento que acontece no geral, um deputado estadual mandou uma outra deputada "ficar caladinha". Bem, esse foi literal. Os outros tentam calar de outra maneira, urrando tipo adolescentes para que a pessoa não consiga falar. O comportamento é de quarta série.

"Mantenham a tranquilidade, mantenham a calma. Vocês não estão respeitando os colegas", dessa maneira, em outubro, a deputada Giovania de Sá tentava controlar os deputados, que brigavam diversas vezes durante uma das sessões que discutiam a reforma da previdência. Ela tinha que falar como uma tia e era solenemente ignorada. Uma professora de maternal de uma turma de 50 crianças de 4 anos teria mais sucesso em conseguir atenção do que ela teve.

Claro, citei exemplos em que mulheres foram ignoradas e interrompidas. Em alguns casos, no ambiente político, algumas conseguem falar. Mas aí, claro, elas levam fama de malucas, grossas, bruxas. Não deve ser fácil ser mulher e deputada.

Resta torcer para que eles não sejam o exemplo da nossa sociedade. Mulheres, se alguém te tratar desse jeito no trabalho, denuncie o abuso. E, amigos homens, assistir TV Câmara pode ser educativo. É só ver como eles agem. E fazer tudo ao contrário.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.