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Nina Lemos

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Slogan da Embratur pede amor, mas quando gringos olham o Brasil veem ódio

Nina Lemos

22/07/2019 04h00

Reprodução

"Brazil, visit and love us". Esse é o novo slogan da Embratur, o Instituto Brasileiro de Turismo. A tradução literal quer dizer: "Brasil, visite e nos ame." Vendo de fora (moro na Alemanha há cinco anos) é irônico que o país convide os estrangeiros a "os amarem", já que o Brasil de 2019 aparece bastante na mídia internacional em geral relacionado ao ódio.

Aqui na gringolândia, o Brasil não tem rimado com amor, mas com dor (como diria Caetano Veloso, uma das coisas que continua amada é a música). De resto, a hora em que o país aparece no noticiário (e tem aparecido mais que nunca) é com notícias que mostram  ódio aos índios, ódio à natureza (nada preocupa mais um gringo que a proteção da Amazônia, e o aquecimento global), ódio aos gays, ódio às mulheres, ódio aos pobres e negros.

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Em entrevista recente que Eduardo Bolsonaro deu para a Fox News, rede de TV conservadora e de direita dos Estados Unidos, a entrevistadora fez as duas perguntas que mais aparecem conectadas ao nome do presidente mundo a fora: "é verdade que seu pai disse que preferia morrer a ter um filho gay?". "O que você acha dele ter dito que uma deputada era muito feia e por isso não merecia ser estuprada" (no caso, a deputada Maria do Rosário ganhou processo contra o presidente, que teve que pedir desculpas). Ninguém esquece disso.

O caso do músico Evaldo Rosa, que foi assassinado com 80 tiros pela polícia, também foi muito noticiado na mídia estrangeira. E o que qualquer pessoa pensa quando lê aquilo?

Os riscos das populações indígenas também preocupa, assim como fato do governo, o mesmo que quer ser visitado e amado, querer transformar áreas preservadas em pólos turísticos. Não são todos os turistas que aprovam que a natureza seja prejudicada para que eles "desfrutem" dela.

"O que está acontecendo com a porcaria do seu país, o que é aquele presidente louco e desgraçado?" Quem me disse isso, quase gritando, foi meu médico alemão ao cruzar comigo em seu consultório. Ele não falou nem bom dia, muito menos esperou pelas minhas respostas. Ele estava com raiva real. E não estava, pelo jeito, com vontade de ir ao Brasil "amar". Ele estava com ódio. Tanto que nem deu tempo de eu explicar tipo: "não tenho nada a ver com isso". Ele saiu espumando dizendo: "não quero saber", "não quero saber".

Duvido que ele, de pensamento ecologista, esteja pensando em ir ao Brasil…  Assim, como a maioria dos amigos gringos que tenho, que responde com um "agora?", quando convido para ir ao meu amado país. "Mas só se for para a Bahia, né?", diz minha amiga chilena, a quem mostro o slogan do país. Ela diz: "Nossa, mas isso é bem patético, está escrito isso mesmo? Isso é real?" A pergunta se alguma notícia é real é ouvida sempre por quem mora fora do Brasil atualmente.

Contra gays e sexista

Irônico também que o convite para ser amado tenha acontecido meses depois do governo brasileiro afirmar que gays não eram bem-vindos no país. Repercutiu no mundo todo a fala: "não queremos transformar o Brasil em um paraíso gay. Temos famílias aqui. Mas se você quiser fazer sexo com uma mulher aqui, fique à vontade", dita pelo presidente. Discriminar os gays é um dos símbolos do ódio máximo. Quem vai amar um país que odeia a diversidade em um mundo cada vez mais diverso? Só aqueles que também a odeiam, certo? 

A mesma fala causou escândalo também por causa das mulheres, claro. Afinal, o Brasil tem um problema seríssimo de turismo sexual (e, por consequência, de prostituição infantil). Segundo a UNICF, cerca de 250 mil crianças se prostituem no Brasil

O slogan "visite e nos ame" leva também a esse escândalo. O Brasil é conhecido no mundo todo pela beleza das mulheres, ou, mais especificamente, pela bunda. Ainda hoje, mulheres brasileiras que moram fora do Brasil são convidadas a rebolar ou sambar para provar que são brasileiras. Nada contra o samba, nada contra rebolar e muito menos contra mulheres bonitas. Tudo contra a imagem de que o país é só isso e que suas mulheres são bens a serem desfrutados, como pareceu na tal fala do presidente.

Essa imagem do Brasil com bundas e mulheres é difícil de mudar. Tem gente tentando há anos. Ela, depois desse convite aos homens, foi chancelada. Agora, esse slogan praticamente convida os gringos a "amarem" mulheres brasileiras! Mas gente! A Embratur nega essa conotação. Talvez nem tenham pensado nisso mesmo. Mas como não enxergá-la? 

Existe amor no Brasil?

Há muitos anos, um gênio criou o Slogan "We love NY", nós amamos Nova York. Esse slogan se popularizou, virou uma marca da cidade. Muitos anos depois, no inicio dos anos 2000, o então prefeito de Berlin, Klaus Wowereit (gay assumido) criou aquilo que seria a marca da cidade, o slogan: "Berlim loves you" (Berlim ama você). Deu muito certo e virou um símbolo de Berlim como a cidade onde todos querem estar. Mas não, ele não implorava amor. E deixava claro que Berlim amava você (sendo você quem você fosse, alemão, turista, artista que veio morar na cidade). Não que seja 100% verdade, mas Berlim é, de fato, uma cidade aberta, onde o gays se beijando aparecem em propagandas da companhia de transporte da cidade. 

Sinto dizer, assim, tão de cara, mas seria mais honesto, para o atual momento do Brasil, um slogan que dissesse: "Brazil hates you", ou seja, o Brasil te odeia. Exagero? Bem, o presidente do país tem sido tratado como uma ameaça para o mundo. Sim, o mundo todo.

Por isso, repito, no caso do Brasil de 2019, é irônico pedir amor. Para ter amor, a gente tem que merecer. Amor não é algo que se implore. Você planta ódio, depois vai pedir para ser amado. Sinto muito, mas acho que não vai funcionar. Para pedir que as pessoas nos amem, antes a gente tem que mostrar que não odeia os outros e que é legal, certo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.