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Nina Lemos

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Assédio: Plácido Domingo é acusado de infernizar mulheres por 30 anos

Nina Lemos

16/08/2019 04h00

Manuela Scarpa/Rio NewsAssediador não tem cara, muito menos tipo físico, classe social ou profissão certa. E, muitas vezes, ele pode ser um homem de poder, famoso, que transforma a vida de mulheres que trabalham com ele em um inferno. Quanto mais poder, pior pode ser o estrago. Agora temos um novo exemplo disso, surpreendente e escandaloso. 

O famoso cantor de ópera, respeitado, ídolo e lenda Plácido Domingo, de 78 anos recebeu  uma série de acusações de assédio. Elas foram divulgadas pela agência de notícias "Associated Press" e são chocantes.

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Nove mulheres afirmaram que foram assediadas por ele fisicamente. Junto dessas acusações, outras seis deram depoimentos dizendo que se sentiram pressionadas ou que sofreram retaliações por não cederem aos avanços do tenor. O fato foi confirmado pela agência por vários músicos e atores que já trabalharam com o artista.

Sim, aquele senhor respeitado por todos, com uma vida toda certinha (ele é casado com a mesma mulher há mais de 50 anos) e admirado até pela sua avó. Mas, pelo que tudo indica, transformou a vida de mulheres em um inferno.

Assédio, quando associado ao poder, pode ser uma bomba na vida de muita gente. Inspiradas no #MeToo, as vítimas de Domingo vieram a público com acusações que vão chocar os fãs do cantor e que devem servir de alerta. Ao ler uma coisa dessas, a gente pensa:  quantos outros casos assim acontecem e a gente nem sabe?

Pois é. No caso de Plácido, algumas das acusações datam de 30 anos atrás, desde quando ele começou a trabalhar com diretor de instituições como a Ópera de Washington e depois da Ópera de Los Angeles. Segundo os relatos, entre as mulheres era comum o aviso: "cuidado com Plácido, não fique sozinha com ele. Não aceite quando ele te chamar para jantar. Mantenha distância." E, pensem, isso durou 30 anos! Trinta anos sem que ninguém, homem ou mulher, desse um basta na situação.

O inferno na ópera

Segundo os relatos, quando escolhia um alvo, ele não parava. Uma cantora, por exemplo, disse que em encontros de trabalho ele costuma encostar em seu seio, ou ficar passando a mão na sua perna durante uma reunião. "Entusiasmado", ele passava a telefonar para as suas vítimas sem parar, 20 vezes por dia, convidando para "encontros para falar para a carreira" ou usar aquela velha desculpa: "vamos ensaiar juntos?". Nesses episódios, algumas ele beijou a força e elas tiveram que fugir de salas de ensaio.

Atenção, ele estava em uma posição de extremo poder, o que tornava a situação das mulheres muito mais difícil. Elas tinham chegado no trabalho dos sonhos. E, de repente, estavam sendo assediadas pelo maior ídolo do meio, que era quem também decidia se alguém pegaria um papel, se seria demitida. 

"Eu sabia que tinha que dizer não. Mas como dizer não para Deus?", disse uma das cantoras que denunciou o assédio.

Depressão e síndrome do pânico

Antes de comentar que elas "deviam ter feito alguma coisa", tente se colocar no lugar delas. Pense que você é jovem, está querendo muito continuar uma carreira e sendo constrangida sexualmente pela pessoa que você mais admirava na vida e que ao mesmo tempo é aquela que pode te abrir todas as portas. Ou fechá-las.

Assédio sexual misturado com posições de poder podem deixar mulheres doentes. E foi isso que aconteceu com muitas delas. Entre os relatos, estão mulheres que dizem ter passado a sofrer de síndrome de pânico. Outras que emagreceram de tristeza e depressão e sentiram como se estivessem morrendo.

Apenas uma delas teve coragem de dar seu nome, e, mesmo assim, ainda temendo represálias. Agora aposentada, a cantora Patricia Wullf,  hoje com 61 anos, finalmente teve coragem de narrar seu pesadelo. 

A resposta do tenor não deixa de ser uma espécie de mea culpa um pouco perturbadora."As alegações dessas pessoas anônimas de mais de 30 anos atrás são profundamente perturbadoras, e como apresentadas, imprecisas".

"É doloroso saber que eu tenha desapontado alguém ou feito alguém se sentir desconfortável, não importa há quando tempo e apesar das minhas melhores intenções. Eu acreditava que todos os meus relacionamentos e interações tivessem sido bem-vindos e consensuais".

Por que perturbador? Oras, porque pode até ser verdade que ele acreditasse mesmo que tivesse poder de agir como bem quisesse com mulheres, que elas "gostavam de ser tocadas no seio" em uma reunião de trabalho. Ele talvez achasse mesmo que essa forma de assédio era uma sedução normal. E não, não estou falando que isso atenua sua culpa, pelo contrário. É chocante imaginar que alguns homens vêem a si próprios como deuses e a mulheres como coisas que podem ser manipuladas sexualmente. 

Por décadas, esse comportamento foi normalizado. A boa notícia no meio dessa história horrível é que, agora, a gente sabe que  é assédio e que esse comportamento é criminoso.

Pelo jeito, a onda começada pelo #MeToo ainda vai nos mostrar que muitos famosos e poderosos têm pés de barro e, na verdade, apesar de grandes artistas, são pessoas horrorosas.

É triste de saber, mas melhor que a ignorância, certo? E, claro, que mais esse exemplo sirva de modelo para que outras mulheres que passam pela mesma situação denunciem. Não é fácil. Nem um pouco. Mas, pelo menos, a gente sabe agora que o nome disso é assédio. E que isso é inaceitável. Se um chefe que trabalha com você age assim, denuncie. E isso vale também para o leitor homem. Ajude as mulheres!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.