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Nina Lemos

Nina Lemos

Você não é boa em fazer coisas ao mesmo tempo. Você é ruim em dizer não

Nina Lemos

19/08/2019 04h00

Será que você consegue mesmo fazer tudo isso? (iStock)

No momento em que escrevo esse texto, faço dois trabalhos ao mesmo tempo. Se o telefone tocar, atenderei. Se eu tivesse filho, eles estariam correndo em volta de mim enquanto eu faço o meu trabalho. Interromperia meu raciocínio enquanto alguém gritasse: "fiz cocô". E voltaria para o texto.

Isso porque eu sou mulher. E, como a maioria das mulheres, sou famosa por fazer várias coisas ao mesmo tempo. Sou chamada de multitarefas, como quase todas. E, muitas vezes, eu mesmo caio nessa bobagem e digo: "deixa comigo, eu faço, sou multitarefas", como se eu fosse uma espécie de eletrodoméstico com múltipla função.

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Essa habilidade é chamada também de mulher tarântula. Já ouviram essa? Temos várias mãos. Uma para o aspirador, outra para o computador, outra para puxar uma criança, outra para pentear o cabelo, porque senão, já viu… "Está despenteada, menina!". Enquanto, com nossas mãos, resolvemos pepinos, em geral temos homens por perto muito concentrados em uma função. Afinal, coitados, estão trabalhando seriamente em um artigo, inventando um avião, ou apenas…. escrevendo um post no Facebook ou brigando no grupo de Whatsapp do bairro, mas aquilo é muito importante. "Faz silêncio! Seu pai está trabalhando!"

Só que essa história de que temos habilidade para ser multitarefas é… uma invenção. Eu já desconfiava. Mas agora parece que os cientistas provaram de uma vez por todas uma coisa que parece óbvia: ninguém, nem homem, nem mulher, é bom em fazer várias coisas ao mesmo tempo. 

Claro, a ideia é superconveniente para chefes em geral, colegas folgados, maridos folgados, filhos exploradores (sim, isso existe). E, claro, ainda tem o mito capitalista de que, no caso das novas gerações, tanto homem como mulheres são multitarefa. Mentira! Não somos. Os cérebros dos millenials não se desenvolveu diferente. Isso é desculpa de chefe que quer cobrar mais e mais das pessoas.

Não sou eu que estou dizendo. São cientistas (que provavelmente tiveram tempo de fazer um estudo sério, pois não estavam fazendo várias coisas ao mesmo tempo).  O estudo testou homens e mulheres e concluiu o seguinte: ninguém é bom em fazer várias coisas ao mesmo tempo, principalmente quando são tarefas semelhantes, que usam a mesma parte do cérebro.

O que os humanos em geral (eu disse humanos, não mulheres) são capazes de fazer é mudar de tarefas muito rápido. Ou seja, não fazemos coisas ao mesmo tempo. Mudamos rápido de função. Somos tipo computadores rápidos, com bom HD e memória. O estudo foi feito por pesquisadores alemães da Universidade Técnica de Aachen. Eles compararam habilidades de homens e mulheres de fazerem coisas ao mesmo tempo. São iguais. E todo mundo é ruim.

Claro, esses computadores que somos, apesar de ótimos, podem travar, quebrar. A gente faz tanta coisa ao mesmo tempo que… pifa! Mulheres ainda fazem a maioria dos trabalhos em casa. Temos chance de estresse. A tela pode ficar preta.

Munida desses dados, não caia no papo de que você é capaz de fazer coisas ao mesmo tempo. Você é, na verdade, e eu também, boa em falar que pode dar conta de mais do que consegue, ruim em dizer não, medrosa de ficar sem trabalho. Só que isso, claro, faz mal. Nosso HD pifa. Nesse caso, você pode ter estresse, ou, ainda, um episódio de síndrome de burnout (quando você literalmente pifa de tanto trabalhar). Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde, 72% dos brasileiros entre 25 e 65 anos, atuantes no mercado de trabalho, sofrem com o estresse em menor ou maior grau. Desse total, 32% são vítimas de burn out. O número é alarmante. Cabe a gente mesma tentar dar limite e aprender a dizer não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.