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Nina Lemos

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Foi estuprada, mas ninguém acredita: o que aprendemos em série da Netflix

Nina Lemos

18/09/2019 04h00

Marie, interpretada por Kaitlyn Dever na série da Netflix (Divulgação/ Netflix)

*esse texto contém spoilers da série Inacreditável, na Netflix

Alguma vez você já ouviu uma história de estupro ou abuso e pensou: "essa menina às vezes inventa coisas, será que é verdade mesmo?" "Será que ela não está exagerando?" Eu sim, confesso. E tudo isso veio na minha cabeça assistindo à série "Inacreditável", que estreou esse mês no Netflix.

 

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A história (baseada em um caso real) conta a história de Marie, uma jovem de 18 anos que, depois de ser estuprada e denunciar o crime para a polícia, tem sua história (um ataque violento feito por um estuprador em série) desacreditada. Os policiais (homens) e a mãe adotiva acham que ela inventou. Os policiais são tão agressivos ao tomar o depoimento dela que, assustada, ela acaba concordando com eles que inventou tudo.  E é, depois, acusada de prestar falso testemunho. Sim, ela foi estuprada e acusada em um tribunal. E teve que cumprir pena por isso. 

Esse texto contém um spoiler, mas não é para que você deixe de assistir a série. Ali estão vários assuntos sobre violência contra a mulher que precisam ser pensados e debatidos, como:

1. O privilégio na hora da denúncia

Você já pensou que existe o privilégio branco ou de classe social na hora de denunciar uma agressão? Pois existe, claro. Marie é uma menina que foi abandonada pelos pais e cresceu em lares adotivos problemáticos e vive sob custódia do estado. Ela já tinha sido abusada antes. Com um histórico desses, quem acreditaria nela? O estuprador é muito profissional e não deixa provas.

Mais fácil para a sociedade pensar que tudo teria sido fruto da imaginação dela ou tentativa de chamar atenção. Foi o que fizeram. O mesmo aconteceria com uma menina de classe média alta, com família estável e sem histórico de agressões? Aconteceria com uma estudante de escola particular? A pessoa, no caso, acaba pagando por ter tido uma vida difícil. Como se isso fosse culpa dela. Terrível. 

2. Os policiais homens diante do estupro

Não estou generalizando. Mas, no caso de Marie (repito, a história é real) ela é atendida por dois policiais homens que praticamente a obrigam a dizer que não foi estuprada. Uma vítima de estupro está em choque. Como ela vai reagir com policiais que gritam: "tem inconsistências nesse depoimento! Você tem certeza do que denunciou? Oh, ainda dá tempo de falar que não aconteceu, viu?" É o que eles fazem. E ela, acuada, volta atrás. Quem não voltaria? 

Ao mesmo tempo em que mostra o caso de Marie, a série mostra outros casos de estupro que cometidos (pelo mesmo cara) em outros estados. No caso, as policiais eram duas mulheres, que se uniram para solucionar o caso e prender o estuprador em série. Nenhuma delas culpou as vítimas. Pelo contrário. Elas as acolheram. Em nenhum minuto duvidaram delas.

3. Não existe um jeito só de reagir ao estupro

"Olha, ela está muito normal. Não sei se ela não está inventando coisas. Eu já fui estuprada. Eu sei como uma mulher reage." Quem diz isso na série é uma das mães adotivas de Marie (ela já passou por vários lares). Ela parece até ter boa intenção. Mas desacredita a menina simplesmente porque ela agiu, nervosamente, tentando retomar a vida, evitando falar sobre o assunto.

Cada um reage de uma maneira a um trauma. Não existe um padrão. Uma das outras vítimas mostradas na série teve a seguinte reação: ficou totalmente calma, nem chorou.  A policial que a atende diz o tempo todo: "não estou cobrando nada de você. Cada um age de um jeito. Se não quiser avisar a família, não tem problema." Não, não existe comportamento padrão para vítima de estupro, agressão ou qualquer trauma. 

4. A história é real e não é inacreditável

Inacreditável não é uma série fácil. É duríssima. Ainda mais quando a gente lembra que a história é real. E que histórias como a dela devem acontecer quase todos os dias mundo afora. 

A série é baseada na reportagem "Uma inacreditável história de estupro",  escrita pelos jornalistas  T. Christian Miller e Ken Armstrong  para o "The Marshall Project" que ganhou o prêmio Pulitzer (o mais importante prêmio de jornalismo do mundo) de 2015. No artigo, os jornalistas lembram que apenas 13% dos estupros são feitos por estranhos (na maioria dos casos, os estupradores são namorados ou mesmo membros da família). E que o estupro é um dos únicos crime onde a vítima tem que "provar" que foi realmente vítima de crime. 

Verdade.

E, fazendo um paralelo com o Brasil, será que a denúncia de uma menina de uma favela tem o mesmo peso da de uma garota de escola particular que mora em um bairro "bom"? Será que ela é ouvida da mesma forma? Como uma menina que mora na rua vai ter coragem de denunciar um estupro? Ela vai achar que vai ser ouvida, já que em geral nunca é? E, para lembrar, no Brasil, 70% das estupradas são menores de idade. Depois de ver a série, uma coisa fica muito clara: todas as vítimas devem ser ouvidas. Todas. E com carinho, respeito e consideração. Não tentem provar coisas contra vítimas. Como diz um advogado na série: "Ninguém fala que uma pessoa que foi sequestrada ou roubada inventou". E não deveria acontecer o mesmo com vítimas de estupro.

Vamos começar não julgando. Acolhendo. E, claro: não duvidando. Porque o pior da história de Marie é isso: não é difícil acreditar que sua história é real. Muito pelo contrário. Ela não é "inacreditável". Ela é tristemente real.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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