Topo

Enquanto Ághata morria, ministra se preocupava com reportagem sobre aborto

Nina Lemos

24/09/2019 04h00

 

Sérgio Lima/ AFP

Não deve ser fácil ser ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no Brasil. Afinal, esse é um dos países mais perigosos do mundo. Só ano passado, mais de 57 mil pessoas morreram assassinadas. O número de casos de violência contra mulher são assustadores. A cada 8 horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil

No Rio de Janeiro, as coisas estão particularmente difíceis.  Cinco crianças morreram baleadas só esse ano no estado. Sexta-feira, Ághata Felix, uma menina de 8 anos, morreu depois de levar um tiro nas costas no Complexo do Alemão. Segundo testemunhas e sua família, ela foi morta por um tiro dado por um policial que queria acertar uma moto. O caso, claro, chocou todas as pessoas "de bem" do Brasil.

Veja também

Em um país "normal" todas essas coisas (e todas as outras tragédias) manteriam a agenda de uma ministra pela Mulher, da Família e Direitos Humanos completamente ocupada. Mas… não. Como o Brasil atualmente está longe de ser um país "normal", a ministra Damares Alves anda preocupada, entre outras coisas, com uma matéria jornalística sobre aborto publicada por uma revista independente feminista. 

No fim da semana passada, a revista "AzMina" publicou uma reportagem sobre aborto. Eles contam, entre outras coisas, como é feito o aborto em países onde o procedimento é legalizado. Explicam como funciona o remédio, e qual a dosagem usada. Mas dizem com todas as letras que o processo é proibido no Brasil. E que esses procedimentos são usados no caso em que o aborto é autorizado (estupro, anencefalia e risco de morte para a mãe). A reportagem é bem feita. Explicativa. 

Em tempos normais, poderia desagradar alguns. Isso faz parte da liberdade de expressão. Não se agrada mesmo a todos. E as jornalistas da "Azmina" sabem disso.  Mas, bem, os tempos estão longe de serem normais. Mais uma prova: as repórteres e editoras da revista estão sob ataque desde sexta-feira. Recebem ameaças, denúncias e tiveram seus endereços divulgados. Como jornalista que trabalha para o público feminino há 20 anos, já escrevi muitas reportagens sobre aborto. Nunca fui atacada como elas estão sendo. 

E é aí que entra Damares na história. Na sexta-feira, mesmo dia em que Ághata foi baleada, a ministra postou a reportagem no Twitter e escreveu: "Quero agradecer a [nomes das pessoas] e tantos outros que nos alertaram sobre esse absurdo. Uma apologia ao crime e que pode colocar tantas meninas e mulheres em risco. Já demos encaminhamento à denúncia. Vamos acompanhar." 

Bem, Damares, a vida das meninas e mulheres brasileiras está em risco, sim. Mas não é por causa dessa reportagem. Sábado, morreu uma menina de 8 anos, provavelmente assassinada por um agente do Estado! Todos os dias mulheres são mortas por casos de feminicídio. Não é uma reportagem com o título "Como é feito um aborto seguro?" que vai colocar a vida das mulheres em risco. Inclusive, as mulheres morrem, sim, por causa de abortos. Mas fazendo abortos ilegais, não seguros.

A questão do aborto é polêmica? É. O procedimento é legalizado na maiores democracias do mundo, como na Alemanha, nos Estados Unidos, na Grã Bretanha e na França. Mas sempre vão existir os grupos pró-vida, que vêem o aborto como crime hediondo e não como um direito das mulheres. De novo, isso é normal. Cada um pensa de um jeito. Mas, por isso mesmo, conteúdo de matéria jornalística não deve ser atacado ou proibido, mas discutido. E, claro, jornalistas que produzem reportagens não devem ser atacadas.

"Feministas, abortistas!"; "Bruxas, assassinas!", gritam centenas de pessoas no site da revista e nas redes sociais. E, enquanto isso, mulheres e meninas continuam sendo assassinadas. Sim, estamos em risco. Nossas crianças correm perigo. Mas, repito, não é por causa de uma reportagem em uma revista online. 

PS. A Ministra Damares, até o fechamento desse texto, não havia feito nenhuma manifestação pública de repúdio ou solidariedade à família da Ághata. Prioridades…

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos