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Bolsonaro, visitar príncipe acusado de assassinato não é nosso sonho, não!

Nina Lemos

29/10/2019 13h04

Bryan R. Smith/ AFP Photo

"Todo mundo gostaria de passar uma tarde com o príncipe, principalmente vocês, mulheres." A frase foi dita pelo presidente Jair Bolsonaro para jornalistas nesta terça (29) em uma entrevista em Riade, na Arábia Saudita, onde o presidente está  cumprindo agenda diplomática.

O presidente, que se encontraria pela segunda vez com o príncipe herdeiro da arábia saudita Mohammed bin Salman,  tem a visão errada de que nós, mulheres, estamos em busca de um príncipe. Tudo o que queremos é largar nossos trabalhos e deveres e encontrar um príncipe. Nosso sonho, claro. A gente só pensa nisso. Passamos a vida sonhando com príncipes reais ricos. Isso é o que ele deve pensar. Mas,  claro que isso não é verdade. 

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Não temos mais 5 anos de idade. E nem as crianças de 5 anos pensam mais assim hoje em dia. Elas querem ser piloto ou presidente da república.

E tem um "detalhezinho" bizarro nisso tudo: o príncipe a quem o presidente se refere e com quem diz ter grandes afinidades é suspeito de assassinato

Existe a possibilidade, reiterada por um relatório da ONU,  de que ele tenha mandado matar um jornalista oponente político. O presidente acha que a gente gostaria de passar a tarde com um suspeito de assassinato. Desculpe, mas não queremos de jeito nenhum! Inclusive porque isso seria perigoso.

Mohammed bin Salman é suspeito de ter mandado matar Jamal Khashogg, então colaborador do jornal  "Washington Post",  ano passado, dentro do consulado saudita em Istambul. O assassinato, realizado por um "esquadrão da morte" da Arábia Saudita foi repleto de crueldades. Em junho desse ano, a ONU pediu sanções contra o príncipe com quem o presidente acha que a gente quer tomar chá por considerar ele um homem extremamente perigoso. 

E, bem, parece até piada, né?  Jair Bolsonaro sugeriu para jornalistas que elas sonhariam em passar uma tarde com… o acusado de matar um jornalista!

Um dos piores países para mulheres

Mas, mesmo se o príncipe não tivesse esse histórico apavorante, não seria bacana para uma mulher brasileira passar um dia com ele. Isso porque,  não sei se o presidente sabe, mas a Arábia Saudita é um dos piores países do mundo para ser mulher. Lá, os homens podem ter várias esposas. Mulheres casam ainda crianças e, para isso, precisam de permissão de um "tutor" homem. O homem pode se divorciar da mulher na hora que quiser. Uma mulher, nunca. Inclusive, com provas, ela pode ser condenada a tomar chibatas, ou mesmo pena de morte, se trair o marido. Claro, as mulheres têm que usar véus e não podem mostrar o corpo nem os cabelos. 

Esse ano, aconteceu um avanço no país: elas passaram a poder dirigir a e a viajar sem autorização do tutor. Mesmo assim, o avanço nos direitos é lento, muito lento.

E mulheres ainda morrem lá por crimes da honra. Crianças casam obrigadas com homens muito mais velhos. Enfim, tudo o que não queremos, presidente. Seja para a gente, nossas amigas ou nossas filhas.  Aff, o que somos capazes de fazer se um homem desses chegasse perto de uma filha ou sobrinha? Melhor nem imaginar! 

Detalhe perverso: ontem, o presidente elogiou jornalistas. Mas, no caso, elogiou o fato das mulheres repórteres estarem usando o traje "indicado" para mulheres na Arábia Saudita: abaya, uma veste longas de manga compridas que não permite ver nada dos nossos corpos "pecadores."   Deixe esse traje (e esse príncipe) longe da gente!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos