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MC Gui, famoso por atitudes preconceituosas, se desculpa de novo. Adianta?

Nina Lemos

12/11/2019 04h00

Reprodução Instagram

Pedir desculpas é bom? Sim. Errar é humano? Claro. Pedir desculpas resolve as coisas? Depende. Se você fizer uma coisa horrível e pedir desculpas, der um tempo, for perdoado… depois fizer outra coisa horrível e pedir desculpas de novo, esse pedido de perdão não vai enganar ninguém. Assim é a vida.

Acho que isso vale para tudo. Quem nunca viveu um relacionamento com alguém que, por exemplo, traía, se desculpava, e depois traía de novo? É um ciclo sem fim. E chato. O mesmo vale para amigos que pisam na bola, pedem desculpa, pisam de novo. Quem acredita? Quem aguenta? Ninguém.

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Lembrei disso ao ver o pedido de perdão de MC Gui, de 21 anos, aquele que riu de uma garotinha na Disney e postou um vídeo em redes sociais a chamando de feia. 

Na ocasião, ao ser muito criticado, ele disse que a "internet estava chata". Menos de um mês depois, ele disse, em entrevista para o colunista do UOL Leo Dias, que o que tinha cometido uma "grande infelicidade" e pediu uma segunda chance.

Piadas racistas e homofóbicas

Esse foi o segundo "erro" do MC no pouco tempo que acompanho sua carreira nas redes sociais. Na verdade, eu, como muita gente, só soube que ele existia quando soube de seus erros. Maneira ruim de conhecer alguém, né? Mas acontece…

Em 2016, alguns seguidores acharam tuítes racistas no seu perfil e divulgaram. O MC, então uma criança, falava coisas racistas e criminosas, como "você não passa de um pobre feio que parece um macaco",  "Qual a maior tristeza de um caçador? Ter um filho gay e não poder matar". Sim, chocante e terrível. Na ocasião, ele pediu desculpas e disse "que não era essa pessoa." Ele recebeu outra chance, afinal, ele era uma criança quando escreveu (apesar de eu não conhecer crianças que falem esse tipo de coisa, mas ok).

Mas será que ele não era mesmo essa pessoa? Três anos depois ele estava lá, provocando escândalo por postar um vídeo rindo e expondo uma criança que, além de tudo, ao que tudo indica, tinha necessidades especiais. Uma coisa indefensável e um péssimo exemplo para seus fãs. Na ocasião, enquanto era atacado, ele disse que não tinha feito bullying, que era tudo uma brincadeira. Tá, ninguém caiu nessa.

Em entrevista a Leo Dias, MC Gui pediu desculpas, finalmente. Disse que aqueles foram os piores dias da sua vida. "Foi muito rápido. Depois que eu cometi essa grande infelicidade, foi muito rápido a repercussão. Eu tava ainda dentro do parque e fui direto no brinquedo dos personagens que eles estavam fantasiados. Eu tentei justificar. Foi meu terceiro erro, porque aquilo não tem explicação. Mas no momento eu estava eufórico e comecei a receber muitas críticas. Foi quando eu comecei a analisar e apaguei todos os vídeos, inclusive a justificativa, porque a que tentei dar não tem explicação. Parei pra analisar e repensei que eu deveria ter mostrado o que eu sinto hoje e o que eu senti todos os dias de lá pra cá: um profundo arrependimento e tristeza", disse. Ele pediu também uma segunda chance. Mas… espera, Gui, não é segunda, é terceira!

Bem, se não tivesse acontecido um escândalo, se ele não tivesse tido shows  e contratos de publicidade cancelados, será que ele teria se arrependido e apagado? Como acreditar que esse menino, com enorme poder (ele faz, sim, sucesso) não seja uma péssima influência?

Racismo, por exemplo, só para lembrar, é crime. E expor menor sem permissão dos pais também é (apesar de muita gente ter esquecido disso em épocas de redes sociais). Não é porque você se diz arrependido e triste que a gente vai acreditar em você. Repito o que disse na época do episódio da Disney. Se qualquer criança que eu amo (e por isso tenho algum poder de influência no que consome) fosse fã do MC Gui, eu tentaria explicar que existia gente mais legal no mundo para ser fã. O pedido de desculpas e fato dele estar sofrendo não muda em nada a minha opinião, assim como acho que não muda para quase ninguém.

Como diz o velho ditado, a gente colhe o que planta. No caso dos famosos, se planta boicote, perda de contratos e por aí vai. É a realidade da vida. Ah, mas não é possível que o MC Gui mude? Até é. Ele é muito jovem. Mas ele vai precisar de muito chão para provar que mudou. Assim é a vida adulta, Gui. 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos