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"A bela e recatada era violentada", diz Karim Ainouz, de "A Vida Invisível"

Nina Lemos

27/11/2019 04h00

"Sou homem, então não me sinto na posição de falar que fiz um filme feminista. O que posso falar é que fiz um filme anti-machista. E mesmo assim, só consegui contar uma história de mulheres oprimidas porque fiz o filme com mulheres". Quem fala isso é  Karim Ainouz, diretor da "A Vida Invisível", baseado no livro "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha.  

O filme, premiado mundo afora e na corrida para o Oscar (ele foi escolhido para representar o Brasil na premiação e já ganhou o prêmio principal na mostra "Um Certo Olhar", no festival de Cannes)  conta a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) que passam a vida levando "nãos" da sociedade machista dos anos 50. O filme está em cartaz no Brasil desde o fim de semana.

Se você é mulher, assistir  "Vida Invisível" não vai ser uma experiência fácil (apesar de muito importante). Na tela, você vai ver abusos, daqueles que não são exatamente novidade nas nossas vidas. São mais de duas horas de mulheres ouvindo não, tendo seus sonhos destruídos por homens (na verdade, por uma sociedade). A história das duas irmãs, Eurídice e Guida, é ambientada nos anos 50. Mas as semelhanças com os dias de hoje são perturbadoras. Também não espere cenas bonitas de amor.

A primeira cena de sexo no filme é de uma variedade de estupro muito séria e que ainda é tabu, aquela que acontece dentro do casamento. E, para piorar as coisas, ela acontece na "lua de mel" de uma das personagens. Impossível não pensar: mas será que a primeira vez das minhas tias, da minha avó foi assim?

O filme não é fácil para os homens também. Afinal, os personagens masculinos são opressores. Eles dizem não para as mulheres, aproveitam dos seus corpos e são meio bobos (caso de Antenor, marido de uma das personagens, que estupra a mulher na primeira cena, interpretado brilhantemente por Gregorio Duvivier). 

No filme, as duas irmãs passam a vida tentando se reencontrar depois que uma delas decide fugir para Grécia com um marinheiro. 

A história é um pouco parecida com a vida do próprio Karim, filho de mãe solteira (ele só conheceu o pai aos 10 anos de idade) e criado por sua mãe, uma avó, em um "microcosmo de mulheres."  O Blog conversou com exclusividade por telefone com Karim Ainouz, que estava em Tóquio, onde ele divulga o filme. 

 

Bruno Machado/ Divulgação

Como esté sendo a recepção do filme por parte dos homens?

Tem uma coisa engraçada. Nas sessões na Europa, quando abro para perguntas, os homens não falam muito. No Brasil, as mulheres ficam muito envolvidas, querendo falar das suas histórias, se abrir. E os homens fazem perguntas técnicas, tipo,  "Como vai a corrida do Oscar?" eu acho muito louco isso, porque eles não conseguem perguntar sobre o filme, mas também não aceitam ficar calados, isso que é curioso (risos). 

Por que você acha que isso acontece?

Porque o sistema patriarcal é tão forte que ele parece uma coisa óbvia, naturalizada, que parece normal. Quando é exposto, assusta. Enquanto o patriarcado não for colocado em xeque, a gente vai viver em um mundo cheio de violência. Outra percepção maluca sobre o filme que eu tenho sentido é que as pessoas falam: é muito cruel a representação da mulher, como elas sofrem. Mas eu não estou fazendo uma representação, e sim um retrato de uma época em que as coisas eram assim. Eu achei bacana que o Gregório Duvivier disse que sofreu ao fazer o filme e voltar para casa e ver sua filha, que tinha meses, e pensar que ela podia passar por coisas como as personagens passavam. Espero que o filme desperte isso em outros homens também. 

Qual você acha que é a importância de lançar um filme desses quando existe uma nostalgia da ditadura militar, de tempos em que mulher ficava em casa… 

Acho muito importante lançar nesse momento exatamente porque o filme fala de um momento que tem sido idealizado pelos ultraconservadores, que falam desses tempos como se fossem épocas idílicas.  É mentira falar que  "mulher bela, recatada e do lar" era maravilhoso. Essa era uma mulher que era constantemente violentada. Querer a volta de valores morais antigos e mostrar como eles são idílicos é muito perigoso, porque não era bom, era violento. 

Mas você não acha que muitas pessoas sentem nostalgia justamente porque estão perdendo esses privilégios?

Sim! Muitos estão desesperados com medo de perder esse lugar do privilégio. Agora, eu acho que o patriarcado profundo é uma das sementes do fascismo. E quando o patriarcado é colocado em cheque, existe um desespero geral de perder o privilégio que é muito perigoso. Acaba a ética, acaba tudo. E não estou falando só do Brasil, estou falando do mundo todo. Todos esses regimes protofascistas ou ultraconservadores que vemos se espalhando têm o mesmo catalisador: a perda desse lugar de poder e privilégio.

Como o filme mexeu com você, homem, também criado em uma sociedade patriarcal?

Fui criado em um microcosmo que era o oposto disso. Também não fui criado em uma sociedade feminista no interior do Arizona (risos). Mas em uma casa muito mais horizontal porque não tinha a presença da masculino. Era uma mãe, uma avó, quatro tias e ainda tinha as amigas da minha mãe. O único homem da família era um marido de uma tia que tinha ido para a guerra, estava doente, era frágil. Mas, claro, isso  em um contexto de uma sociedade patriarcal, no Ceará na década de 60! Só fui me deparar com isso aos 10 anos, na escola, quando percebi que era tratado de uma forma estranha, porque eu não tinha pai. 

O filme é dedicado a sua mãe. Qual é a conexão entre sua mãe e as personagens? 

Sou filho de uma mulher feminista que lutou a vida toda contra uma sociedade machista. As vezes me pergunto: será que eu tinha direito de ver esse filme? Claro que eu tinha. Eu tinha tinha porque eu sou o filho de uma dessas mulheres. Eu sou o Francisco. Claro que eu sou. A minha mãe se apaixonou, casou,  deu errado e ela veio embora sem o marido. E nunca se divorciou, olha que loucura. É igual a história do filme. Eu me identifiquei assim que acabei de ler o livro.

Eu achei o filme um dos mais feministas que eu já vi na vida. Como você, homem, conseguiu fazer um filme assim?

Que bom que você vê assim. Mas, no meu lugar, prefiro pensar que fiz um filme "anti-machista".  Mas a primeira coisa que pensei foi, quem são as minhas parceiras? Quem são as mulheres que vão me ajudar a contar essa história? O próprio livro foi escrito por uma mulher, tive uma fotografa mulher, mulheres em várias áreas do filme. Não podemos ser ingênuos mais. Eu não pensei nisso, quando, por exemplo, filmei o "Céu de Suely". As coisas mudaram. Agora a gente pensa nisso. Como eu teria feito um filme desses se não fosse com mulheres? Como teria feito um filme de parto, se eu nunca pari? Isso foi muito importante. Trabalhei com mulheres muito generosas. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.