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Tragédia de Paraisópolis: quem culpa os pais está culpando as vítimas

Nina Lemos

04/12/2019 04h00

(Danilo Verpa/ Folhapress)

"Onde estavam os pais dessas crianças?"

"Como assim eles saíram de casa?"

"Quem deixou ir ao baile funk?"

Essa tem sido a reação de muitas pessoas em relação à tragédia de Paraisópolis. Para quem não sabe do horror: no último domingo, nove jovens (entre 14 e 23 anos) morreram durante uma ação da PM em um baile funk em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Uma tragédia daquelas que leva qualquer um às lágrimas e à revolta.

Uma das coisas que dá tristeza (para mim e imagino que para muita gente, principalmente pais ou padrastos de adolescentes) é imaginar a dor deles ao receber uma notícia dessas. Mas, no meio da repercussão, tem gente CULPANDO os pais e responsáveis. Ou seja, mais uma vez se culpa a vítima. 

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Sim, nesse caso as vítimas não são só os jovens mortos, mas também seus familiares. Difícil imaginar uma dor (e uma raiva) maior do que os pais desses jovens devem estar sentindo agora. 

Mas culpar a vítima é um vício antigo ("se foi estuprada, é porque deu mole"), e talvez seja mais fácil do que pensar no tamanho da injustiça, do absurdo e do crime que é um jovem sair para uma festa e nunca mais voltar.  Talvez "os culpabilizadores" sintam alívio e pensem "com meu filho não aconteceria." 

Na lógica dessas pessoas, "se foi morto, é porque fez algo errado." E se fez algo errado, foi porque os pais deixaram. Não, os jovens não fizeram nada de errado, eles foram se divertir em uma festa. E, mesmo se tivessem feito, não mereciam morrer asfixiados (é o que dizem os laudos preliminares do IML). Era para isso ser óbvio.

Quem mandou?

Os que comentam coisas do tipo: ""Cadê os pais desses jovens?" seguem aquela lógica antiga do "quem mandou". "Quem mandou usar saia curta, acabou estuprada."  "Quem mandou ser gay, acabou apanhando." "Saiu de noite, foi a um baile funk, quem mandou, acabou morrendo." 

Assustador ver que tem gente que ainda pensa assim. 

Claro, é quase óbvio que uma tragédia como essa não aconteceria em um clube de classe média em uma área nobre da cidade. Assim como não é novidade que mais jovens morrem nas periferias e que a maioria deles é negra.  

Mas isso é culpa dos pais? Dos mortos? Ou de uma sociedade racista e desigual? 

Com a palavra, a mãe de uma das vítimas, Maria Cristina Quirino Portugal, mãe de Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos.  

"Fiquei acordada até quase duas horas da manhã esperando ele chegar. Ele não chegou, eu dormi, acordei com o coração pequenininho. Mas aí meu telefone tocou, eu atendi o telefone e era de um hospital. Eu perdi meu filho caçula, meu bebê. Eu perdi meu filho."

Você tem mesmo coragem de achar que a culpa é dela? Pode ser menos doído. Mas também é muito cruel. Não vamos transformar essas mães, pais e avós em vítimas também do preconceito e da calúnia….

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos