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Malu Mulher, estrelada por Regina Duarte, seria aceita por bolsonaristas?

Nina Lemos

27/01/2020 04h00

 

Aborto, com direito a cena em uma clínica clandestina e discussão sobre legalização, divórcio, prazer feminino, amigos gays, discussão sobre métodos anticoncepcionais e feminismo. Esse não é o enredo de uma série escandinava que vai estrear na Netflix, mas de um seriado icônico, que foi ao ar há 40 anos e era estrelado pela atriz Regina Duarte, a provável nova Secretária de Cultura do governo Bolsonaro. Malu Mulher foi dirigido e criado por Daniel Filho e foi ao ar na Rede Globo entre 79 e 80.  

Vendo alguns episódios (ainda tem no Youtube, vale a pena!) a pergunta que vem é: será que um seriado igual a esse não sofreria tentativa de censura do atual governo? Ministros e filhos do presidente não se manifestariam contra esse "absurdo" em redes sociais? 

Malu, a personagem principal, é uma socióloga (ah, essa turma de humanas que só quer fazer suruba e usar drogas em Universidades!)  que decide se desquitar (o divórcio só tinha sido aprovado há dois anos e era coisa rara na época) por querer mais da vida, sua liberdade, sua felicidade e independência.

 Ela passa a formar uma família moderna com a filha adolescente Elisa (interpretada por Narjara Tureta). Mas acaba ficando amiga do ex, interpretado por Dennis Carvalho. As namoradas do ex ficam suas amigas (sororidade é tudo) e Malu cria a filha dizendo para ela o tempo todo que ela precisa ser emancipada. 

Em um dos diálogos, conversando com uma amiga e com a filha, Malu diz: "mulher não precisa ser frágil. Mulher também tem que ser agressiva, tem que saber se defender". E completa que é bom que a filha ouça isso para "já ir aprendendo".

 Como essa mulher maravilhosa seria aceita em tempos em que a colega de Regina Duarte, Damares, prega que "meninas vestem rosa, meninos vestem azul" e que meninas que gostam de ser tratadas como princesas

Como sobreviveria Malu em tempos de exaltação de belas, recatadas, e do lar?

Malu tomaria pedras? Seria a nova Geni? O seriado sofreria um boicote ou uma tentativa de censura, como aconteceu com o especial de Natal da "Porta dos Fundos"?

Legalização do aborto

Talvez, pois eles falavam também claramente sobre esse assunto que, 40 anos depois, virou um bicho de sete cabeças: a legalização do aborto. De maneira direta e mostrando todos os lados da questão, inclusive que fazer aborto, ainda mais em uma clínica ilegal, não é bacana nem gostoso. 

O nome do capítulo já diz tudo: "Ainda não é a hora." No episódio, Jô (interpretada por Lucélia Santos), filha do porteiro do prédio e amiga mais jovem de Malu, está grávida, desesperada. "Não é a hora! Eu ainda quero estudar", ela diz para Malu. A jovem pergunta: o que eu faço? Malu responde: "Eu não sei o que você faz. Como? O que eu posso te dizer? Isso é uma coisa tão pessoal, que envolve tanta coisa. É uma coisa que só a pessoa pode decidir". "E se acontecesse com você?", pergunta a amiga. Malu responde: "não aconteceria, eu tomo pílula. Eu não sei, isso é uma escolha da individual!" Sim, elas falam sobre direito da escolha, sobre meu corpo, minhas regras. "Mas e se acontecesse, você tirava?", Jô insiste. A cena congela na cara de Regina/Malu. 

Depois disso, Malu ajuda a amiga. As duas ouvem o não de um médico católico e vão parar em uma clínica clandestina, onde são mal tratadas. Mas o aborto é feito. Na TV aberta.

No mesmo episódio, mais tarde, em uma conversa com o pai da garota, a personagem de Malu diz. "Mas o que se pode fazer? Enquanto não for legalizado, as infelizes das mulheres estão nas mãos deles, mesmo. Todo mundo condena. Diz que é crime, é pecado. Mas na hora todo mundo fecha os olhos porque pode precisar. Isso se chama hipocrisia. Mas então, se é uma coisa necessária, porque não legalizar? Porque não tornar menos sórdido? Mais civilizado?"

Sim, esse diálogo aconteceu na TV aberta, na Globo, 40 anos atrás.

A política da abstinência sexual, sugestão de Damares, também não é representada no programa, muito pelo contrário. Malu fala abertamente sobre sexo com a filha, faz uma festa para celebrar sua primeira menstruação e a palavra pílula (o programa foi feito na era pré Aids, antes da camisinha ser obrigatória) aparece praticamente em todos os episódios.

Eu era muito pequena, devia ter uns 9 anos, mas vi alguns capítulos de Malu Mulher. Minha mãe não só deixava (coisas que muitas mães de amigas não faziam) mas achava que era importante eu ver para ter essas informações. Não posso concordar mais. E até hoje lembro do que vi há quarenta anos. Não com choque, imagina! Com admiração e carinho. Eu, como muitas mulheres da minha geração para cima, devo muito a Malu Mulher e sou grata a essa maravilha ter acontecido.

Pena que Regina Duarte pareça não ter o mesmo orgulho. Ano passado, em entrevista a Pedro Bial, ela disse  ter sentido um certo alívio quando o programa acabou. ""Eu estava achando ela muito chata, muito autoritária, muito dona da verdade, muito feminista. Aquilo que eu nunca quis ser."

Uma sugestão: em tempos de obscurantismo, bem que a Globo poderia reprisar Malu Mulher, os temas ainda são atuais e tratados com muito cuidado. Seria de utilidade pública. Será que a talvez futura secretária da cultura iria gostar?

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos