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Bocardi comete racismo e se “defende” com lógica do “até tenho amigo negro”

Nina Lemos

07/02/2020 16h56

Reprodução/ Globo

"Um menino negro está com uma camiseta de um clube de elite de São Paulo no metrô. Ah, então obviamente ele trabalha para o clube, claro." O pensamento racista (e extremamente comum no Brasil) foi externado hoje de manhã pelo apresentador Rodrigo Bocardi, do "Bom Dia Brasil".

Enquanto um jovem dava entrevista ao vivo, o repórter disse: "Você vai pegar bolinha de tênis no Pinheiros, o Rodrigo está lá perguntando". "Não, eu sou jogador de polo aquático", respondeu o menino. No que Rodrigo disse: "Ah, aí sim! Que fera! Achei que era um dos meus parceiros que me ajudam pegando bolinha ali todo dia."

A atitude do apresentador, claro, foi percebida pelos telespectadores, que passaram a denunciá-la. Vivemos em um tempo em que não dá mais para deixar esse tipo de coisa passar batido. Tem quem chame isso de patrulha do politicamente correto, mas acho que a maioria vai concordar comigo que isso é uma luta antirracista básica, não?

Rodrigo poderia ter feito o que muitos de nós, brancos, temos que aprender a fazer na vida: admitir que teve, sim, um pensamento racista e pedir desculpas. Sim, fomos todos criados em uma sociedade racista e nós, brancos, temos que combater o racismo que temos em nós mesmos. Assim como os homens criados em uma sociedade machista podem tentar combater suas atitudes sexistas, certo?

Rodrigo não fez isso. Pelo contrário. Ele decidiu, em um lance bizarro, chamar quem reconhece o racismo de… racista! Segundo essa lógica, se um negro fala que uma atitude é racista (e sim, se ele falar eu preciso escutar e entender que só ele sabe, de fato, o que é sentir o racismo) seria racista?

 Ao saber da repercussão da sua fala, ele disse ao vivo. "Eu perguntei aquilo porque é um clube que eu frequento todos os dias e jogo bola, e rebato bola com todos aqueles garotos que usam camiseta daquela forma. Não existe preconceito. Não existe racismo. Quem fala e quem escreve é que é."  

Ao falar que não há racismo, ele só falta dizer a frase clichê "não existe racismo no Brasil". E, ao justificar falando que "até jogo bola com eles", Rodrigo recorre  ao  antigo chavão usado por homofóbicos e racistas, que adoram dizer: "imagina, não sou homofóbico, até tenho amigo gay". "Claro que não sou racista, tenho amigo negro." 

Calma que ainda piora. Para provar que não é racista, Rodrigo mudou sua foto de perfil no Twitter (onde estava essa manhã nos trend topics) para uma em que ele está rodeado de crianças negras. 

Pára lá! Ele acha mesmo que é assim que vai provar que não foi racista? A lógica do "até conheço negro, olha, até brinco com eles", ataca novamente. E outra, quem são essas crianças? As mães autorizaram que elas estivessem nas fotos? Sim, ele personificou o "white savior", o branco salvador, aquele que brinca com crianças em viagens, mas aproveita e faz selfie.

Babá vestida de branco

Ah, para lembrar, o Clube Pinheiros, esse que Rodrigo se orgulha de frequentar todos os dias, já esteve envolvido em processo por não permitir que babás circulassem por suas dependências sem uniforme branco, uma atitude que remete aos tempos da escravidão em que mulheres negras uniformizadas serviam sinhás. E não, isso não é normal. Em nenhum lugar do mundo existe babá vestida de branco como existe no Brasil. E elas, claro, são, em maioria, negras. Uma atitude que deveria ser rechaçada por todos os integrantes do clube (brancos em maioria, claro). 

Como dizem no Twitter,  todo dia tem um branco passando vergonha. Eu, branca, envergonhada, tenho que concordar.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos