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Marchesa, marca de ex de Harvey Weinstein, some de tapetes vermelhos

Nina Lemos

09/02/2020 04h00

Neste domingo, quando celebridades desfilarem pelo tapete vermelho do Oscar, dificilmente você vai ver uma delas usando Marchesa. Até 2017, a marca era a favorita das estrelas, que, quando ao responderem o que estava usando, diziam orgulhosamente "Marchesa". Se alguma delas tiver coragem para tal ato,  vai virar notícia por isso. E não só pela qualidade do look.

Motivo: uma das donas grife é Giorgina Chapman, ex-mulher de Harvey Weinstein, que, enquanto acontece o Oscar, é julgado em uma corte de Nova York. E, segundo vários testemunhos, por anos, ele usou seu poder para forçar atrizes a vestirem a marca em grandes eventos, além de presentear potenciais vítimas com vestidos da marca da ex. 

O julgamento tem sido um show de horror.  Em duas semanas, já se viu acusações de estupro em detalhes, relacionamentos abusivos, mulheres tendo ataques de pânico e às lágrimas. A defesa deve começar a entrevistar testemunhas essa semana, coincidentemente, pouco depois do Oscar. 

Ah, mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Desde que as acusações contra Harvey começaram, atrizes vieram a público falar que eram forçadas pelo produtor a usar a vestidos da grife em tapetes vermelhos. Entre elas, estão estrelas como Jennifer Aniston. 

"Eu estava gravando em Londres quando Georgina começou sua linha de roupas. Ele veio me visitar no set e disse: 'então, eu queria que você usasse um dos vestidos na prèmiere."' Em entrevista para a revista "Variety", isso aconteceu em 2005, enquanto ela filmava o filme "Fora de Rumo", pela produtora Miramax, da qual Harvey era diretor.  "Ele ficou forçando a barra e eu disse: não, não vou usar isso."

Jennifer, já estrela, pôde dizer não. Muitas, não ousaram.

Felicity Huffman, por exemplo, confessou, quando as denúncias contra Harvey apareceram, que ele a tinha forçado a usar a marca da então esposa no tapete vermelho. Segundo um stylist de celebridades que não se identificou, o mesmo teria acontecido com Sienna Miller. As ameaças eram perder dinheiro de produção, ser boicotada. E, claro, não deixar "Harvey chateado".

Não parece ser coincidência que a marca tenha crescido (muito rápido) junto com a carreira de Harvey e tenha tido como carro chefe justamente os tapetes vermelhos.

Sandra Bullock recebe Oscar de melhor atriz em 2010 usando Marchesa

 

Citada no tribunal

Semana passada, o nome Marchesa surgiu de novo, mas nos tribunais, e junto com uma história de terror. 

A atriz Jessica Mann, de 34 anos, depôs duas vezes na corte contra Harvey. Ela acusa o produtor de a ter estuprado em 2013. A atriz, que chegou a ter um caso consensual com Harvey, alega ter sido estuprada quando tentou terminar o relacionamento. "Você me deve, você me deve", ele teria dito, antes de atacá-la. O depoimento foi feito aos soluços e, em certa hora, a atriz disse que Harvey chegou a dar para ela um vestido da grife Marchesa e teria dito que ela parecia com a ex-esposa: "porque nós duas éramos desajeitadas."

Quando a bomba estourou e dezenas de histórias de assédio contra Harvey vieram à tona, em 2017, Georgina se separou do marido imediatamente. Por um ano, a grife interrompeu suas atividades e sumiu dos tapetes vermelhos. Segundo eles, foi um período de luto. Não cabia o clima de festa, mesmo. 

Hoje, a marca tenta se reerguer com o apoio de poucas celebridades. Scarlett Johansson, por exemplo, usou um vestido da grife no MET Gala em 2018 e ainda disse: "eu escolhi Marchesa porque as suas roupas fazem as mulheres se sentirem confiantes e bonitas. E é um prazer apoiar uma marca criada por duas mulheres talentosas e importantes". Cindy Crawford também usou um vestido da marca em 2018. De acordo com a "Vogue" britânica, para algumas atrizes, vestir a marca seria demonstrar sororidade.

Mas, mesmo assim, poucas fazem isso. 

O reinado da grife, que chegou a ser eleita "A melhor grife de tapete vermelho" em 2017 parece realmente ter acabado.

Detalhe, uma das primeiras atrizes a usar a marca foi Renée Zellweger, no lançamento de "Bridget Jones", uma produção da Miramax, do então poderoso Harvey Weinstein. Na época, em 2004, a marca tinha acabado de começar, assim como o namoro do casal. "Descobri essa grife inglesa que eu gosto muito", ela disse na época. Renée concorre, no Oscar 2020, ao prêmio de melhor atriz e é uma das favoritas. Será que ela vai ter coragem de vestir Marchesa ao mesmo tempo em que Harvey, que ajudou a turbinar o sucesso da marca, é julgado e o nome da grife aparece conectado a assédio? 

Se sim, será uma atitude clara de apoio a outra mulher. Se não, é compreensível. Os caminhos de Weinstein e da marca são intimamente ligados. Quem diria, que entre sorrisos e vestidos de princesas existiriam mulheres pressionadas e chantageadas? E será que a dona da grife não sabia do esquema de pressão que o marido fazia?

Claro, Harvey não fazia isso para "ajudar a mulher", mas por dinheiro. Vale lembrar que tapete vermelho, com toda sua exposição, é uma indústria. Uma imagem de atrizes usando uma marca em um evento de gala vale dinheiro. E muito. Algumas vezes, no meio de tanta beleza, o dinheiro também pode ser sujo.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos