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A história não tem dois lados: nada justifica violência contra mulher

Nina Lemos

14/02/2020 16h32

"Estava sendo atacado por todos os lados", "Sofri bastante", "Não sou esse monstro que a imprensa criou". Essas foram algumas das frases ditas pelo goleiro Jean, acusado de agredir a mulher em dezembro, na coletiva que fez em apresentação ao seu novo clube, o Atlético Goianiense, em Goiânia, na quinta-feira.

Sim, ele já está trabalhando. E está recebendo tratamento VIP. Enquanto isso, sua ex, Milena Benfica, expõe mais detalhes sobre a agressão no Instagram. Para quem não lembra do caso: a ex gravou um vídeo ensanguentada na época, pedindo socorro — e o jogador chegou a ser preso nos Estados Unidos. Na volta, foi dispensado do São Paulo, mas logo arrumou "novo lar".

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Na entrevista coletiva de apresentação em seu novo clube, Jean foi recebido como estrela, com um monte de mensagens de boas-vindas. Também foi chamado de "rapaz que merece uma chance", entre outras fofuras. Minha avó diria que ele foi tratado a pão-de-ló.

Quanto a colocar a culpa de nós, jornalistas: nos deixe fora dessa, Jean. Não temos nada com isso. Não somos acusados de bater em uma mulher e não estamos sendo julgados por isso. 

Mas voltemos ao show de horror que foi a coletiva. Um dos repórteres, mais animados, disse que "ele ia gostar muito de Goiânia, que era uma cidade de mulheres lindas" — e os convidou para sair, visitar as festas da cidade. 

Sim, isso aconteceu. E é muito ilustrativo de como a violência contra a mulher no Brasil é banalizada (e, por isso mesmo, só cresce). Como pode uma pessoa que agrediu uma mulher ouvir um "bem-vindo à nossa cidade, aqui tem mulheres lindas"? Você ofereceria suas vizinhas para um acusado de atacar a ex com socos? Que mundo é esse? 

Quando não era tratado como Don Juan, Jean era tratado como um garoto que fez bobagem (ôh, dó).  Os diretores do clube disseram estar  "felizes por ajudar um ser humano a se recuperar, um ser humano que sabe que errou e não quer persistir no erro." 

Quisera eu que mulheres fossem tratadas assim! Não somos nem quando somos as agredidas, imagina se a gente agredisse! Sim, quando a gente apanha ou é estuprada, por exemplo, sempre é ouvida com desconfiança: "o que você fez?", "você provocou?". No caso de Jean, ele está sendo tratado com todo carinho.

Dois lados?

Uma das frases mais usadas pelo jogador — que assumiu a agressão e pediu desculpas a todas as mulheres — foi que toda história tem dois lados. Que dois lados? Quem apanhou? Duas pessoas foram agredidas e encaminhadas a tratamento médico? Dois lados estão sendo processados? 

Nada justifica violência contra mulher. Nada. Então, o lado que existe, no caso, é de uma agredida e de um acusado de agressão, certo? 

O outro lado é a ex mulher, Milena Benfica , que se sentiu indignada com a entrevista e publicou no Instagram novas acusações contra Jean (de que ele não estaria pagando pensão e teria distorcido a história).  Ela também publicou mais fotos suas com o rosto deformado depois da agressão.

Assim estão os dois lados. Um está sendo tratado a pão-de-ló. O outro está pedindo socorro no Instagram e sendo criticada, claro, por "destruir" a carreira do ex.

Não, eu não acho que trocar acusações no Instagram seja a melhor maneira de resolver conflitos, de jeito algum. Mas consigo, sim, entender o desespero de uma mulher que passa por todos os traumas de uma agressão e vê o seu "monstro particular" sendo tratado como alguém que cometeu um errinho qualquer, mas que é merecedor e "muito bem-vindo". Na verdade, nem consigo imaginar. É doloroso demais.

O recado que fica, para todas nós, mulheres, é a de que agressão contra a gente não significa nada. O agressor fez só uma bobagem. "Afinal, quem nunca errou?"  Isso sim,  dói em todas as mulheres. E não adiantam os pedidos de desculpas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos