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Nina Lemos

Coronavírus na Alemanha: prateleiras dos supermercados já estão vazias

Nina Lemos

15/03/2020 04h00

"Você já foi ao supermercado hoje? É uma experiência bizarra." Recebo essa mensagem de uma amiga junto a essa foto que você vê acima. Sei o que ela quer dizer. Acordei na sexta-feira e decidi ir a uma drogaria muito popular aqui em Berlim, onde moro há mais de 4 anos, e que vende de um tudo:  para além de remédios e vitaminas, também tem maquiagem, chocolate e produtos de limpeza. Eis que chego lá me deparo com a seção de limpeza praticamente vazia. São prateleiras e prateleiras vazias. As pessoas estão comprando pacotes de papel higiênico (os que ainda sobraram) e restaram poucos lenços umedecidos. Não consegui achar desinfetante.

Em Berlim, até o momento em que escrevo esse texto, são mais de 260 casos de coronavirus confirmados. Contando toda a Alemanha, o número sobe para  mais de 4 mil. Até quinta-feira, as pessoas estavam agindo normalmente.

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Na sexta-feira, o governo avisou que todas as escolas serão fechadas a partir de terça-feira por pelo menos cinco semanas. A partir daí, a cidade enlouqueceu. 

O começo do choque eu tinha visto um dia antes, quando o governo da cidade avisou que todos os teatros, óperas e até o Berghain (o clube de música eletrônica mais famoso do mundo) fechariam as portas. Aglomerações de mais de mil pessoas estão proibidas. Dois dias antes, com seu tom calmo, mas firme, a chanceler Angela Merkel já tinha avisado que "entre 60% e 70% dos alemães contrairiam o vírus.

Mas a vida corria normal. Até que, na sexta, as pessoas acordaram e correram para os supermercados. E quem sou eu para julgar? Eu também estava na fila da drogaria comprando meu "kit corona": que inclui vitaminas, chá, lenços umedecidos (porque vi que estavam terminando). No pânico, comprei também papel higiênico. Sim, o efeito manada é impressionante. A gente pensa na hora "se todo mundo está comprando, deve ser importante".  

No mercadinho do lado de casa, a prateleira de macarrão está vazia, assim como as de produtos de limpezas. Curioso ver como as pessoas se preparam para o fim do mundo, ou para uma quarentena: elas compram muita comida e areia de gato, por exemplo (quase esgotadas).

Diante desse cenário, decidi andar até um supermercado grande perto da minha casa para fazer um estudo de caso. Está lotado de gente. Prateleiras de enlatados, massa e arroz estão vazias. Um casal de velhinhos enchem um carrinho com galões de água. A geladeira de carne também está vazia. As filas são imensas.

Dentro, as pessoas falam sobre corona, uma coisa pouco usual, já que em Berlim em geral as pessoas não falam com estranhos. Mas ninguém usa máscara. O pânico parece ser o de ficar sem comida mesmo. Estocar comida é normal na Alemanha. Nas vésperas de feriados, os supermercados é comum ver as pessoas comprando como se preparassem para o fim do mundo. Dessa vez, estão comprando mais ainda. Não é o fim do mundo, mas a possibilidade de quarentena, adotada por países como a Itália, é cada vez mais real, apesar de não ser certa. Se confirmada, as pessoas serão obrigadas a reduzir drasticamente suas saídas de casa. 

Meu marido volta de um hiper mercado e diz que pegou o último pacote de macarrão (eu juro!).  O estacionamento estava tão cheio que criou um engarrafamento na "Autobahn" (via expressa ao redor da cidade, como se fosse uma Marginal Tietê).

Apesar do clima de fim do mundo, que, sim, causa uma angústia horrível (que nem é pelo vírus em si, mas pela sensação distópica de você ter ido parar em um seriado do Netflix de fim do mundo) as pessoas estão mais simpáticas e conversam. Sim, isso não é normal em Berlim. As pessoas não falam uma com as outras. Hoje, em um café ao lado do supermercado, uma cliente conversava com os balconistas. "As pessoas estão se preparando para a quarentena", disse. Um atendente adolescente comemora que está sem aula. "Mas aqui vai continuar aberto?", pergunto. "Por enquanto", ele diz com um sorriso no rosto. Na saída do metrô (andei pela estação e só vi uma pessoa de máscara) um artista tocava Summertime no violão. Mais distópico e mais a cara de Berlim, cidade berço de artistas, impossível.

Em pleno sábado à noite (e Berlim é a cidade das festas), veio a notícia de que bares, pubs e cinemas também seriam fechados. Uma amiga conta que estava em um bar na Kuddam (uma das avenidas mais famosas de Berlim), a polícia chegou e o bar foi fechado. "Dentro do metrô só tinha eu de mulher, estava tudo vazio, foi horrível", ela conta. A BVG (companhia de metrô e ônibus) também deve diminuir o serviço de transporte. O que virá na segunda-feira… ninguém sabe. Esperamos dentro de casa ou, no máximo, em parques, que continuam com pessoas caminhando e crianças andando de bicicleta.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.