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Taís Araújo reflete sobre vida sem empregada. Mais brasileiros farão isso?

Nina Lemos

23/03/2020 04h00

Reprodução/ Instagram

Enquanto o mundo é atingido pela pandemia do coronavírus, um desafio tem abalado muita gente de classe média e alta no Brasil: como ter uma vida sem empregada doméstica? Sim, o Brasil é o país com mais domésticas do mundo, praticamente uma anomalia. São cerca de 3 domésticas por 100 pessoas. Segundo dados do IBGE, o número bateu recorde em 2018, quando o Brasil registrou o maior número de empregadas em 7 anos: mais de seis milhões.

O fato de muita gente no Brasil não limpar a própria privada e ter empregada morando em casa choca as pessoas ao redor do mundo.  Moro na Alemanha há cinco anos e mais de uma vez causei espanto em conversas com alemães contando sobre isso. "Mas jura? Essas pessoas são muito ricas, né?", me perguntou uma professora, mãe de três filhos. Eu expliquei que não, não eram ricas. Eram como ela. 

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Agora, com todos trancados em casa por casa da pandemia, essa é uma boa oportunidade para se pensar sobre essa aberração, não? Será que finalmente as pessoas de classe média e alta do Brasil vão ver que a mão não cai se lavar a louça e que limpar a privada não é nada de mais? 

Alguns privilegiados brasileiros parecem estar repensando esse estilo de vida. Uma delas é a atriz Taís Araújo, que disse em um vídeo no Instagram que tinha dispensado os empregados da casa e se dado conta do grande privilégio em que vivia.  "A gente mora numa casa super grande, todo mundo que trabalha aqui está em casa se cuidando. Então, a gente está tendo que encarar a nossa vida, que é uma vida cheia de privilégios, e tem sido um desafio incrível. O que eu tenho feito: tenho limpado minha casa diariamente, Lázaro tem cozinhado, a gente fica alternando. As crianças também têm ajudado muito". 

Palmas para Taís, que tem capacidade de repensar seus privilégios. Tomara que outros façam o mesmo. E, mais importante, que as pessoas MUDEM de atitude depois que a pandemia passar.  

Não estou sugerindo que seis milhões de pessoas ( praticamente só mulheres ) fiquem desempregadas. De jeito nenhum. O que gostaria é que todas pudessem escolher a profissão que querem ter. E, que se fossem diaristas, fossem pagas por hora, em um valor justo, assim como acontece nos países menos desigualdade social.

Existe empregada doméstica na Europa? Que eu saiba só em palácios,  lares reais e casas de celebridades milionárias. Para as pessoas comuns, existe, sim, diarista ou babás. Elas são pagas por hora e, como o trabalho é pesado, o serviço custa caro.

Por aqui é normal que as pessoas cuidem de suas casas. No sábado, a chanceler Angela Merkel foi fotografada fazendo compras sozinha em um supermercado perto de sua casa. Como uma pessoa comum, ela comprou vinho, papel higiênico. Detalhe importante: essa não é a primeira vez que a chanceler é fotografada no mesmo local. Ela é freguesa. Ela faz as próprias compras muitas vezes. "Você acha que a Merkel tem uma empregada morando na casa dela?", pergunto para um alemão. "Eu não consigo imaginar", ele responde.

No Brasil, não precisa ser chanceler nem celebridade. Quando criança, já tive babá. Eu, que sempre fui classe média, inclusive com momentos de muito aperto. Mesmo assim, confesso, só fui fazer certas coisas, como limpar a privada, quando saí do Brasil. Por isso eu não julgo a Taís de jeito algum. Eu também precisei de uma mudança para repensar meus hábitos.

Hoje, me choco quando leio que a apresentadora Marília Gabriela dispensou suas empregadas durante a crise. O fato dela dispensar não me chocou (ela é uma mulher inteligente, bacana). O que me assustou foi o fato dela ter três empregadas. Gente, como uma pessoa pode precisar de três pessoas trabalhando em casa? Sério, eu não entendo.

Taís e Marília fazem parte do lado bom da força, claro. São mulheres informadas, inteligentes. Muitas não estão fazendo nem isso e mantém suas empregadas trabalhando para elas durante a quarentena. Ou dispensam diaristas e não pagam.

Um lembrete muito importante e chocante, que devia surgir de lição. Uma das primeiras vítimas de coronavírus no Brasil foi uma mulher de 62 anos, diabética e hipertensa que trabalhava como doméstica e foi contaminada por sua patroa (que não a liberou)

Só esse absurdo devia ser o suficiente para fazer todo mundo colocar  a mão na consciência e não compactuar com esse tipo de absurdo. Mas, será? Eu, infelizmente, duvido que a maioria mude. Mas que seria uma revolução, seria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.