PUBLICIDADE

Topo

Bolsonaro, Trump e a masculinidade que pode matar (a eles e aos outros)

Nina Lemos

30/03/2020 04h00

AFP

 "Homofóbico orgulhoso, Jair Bolsonaro pensa que é macho demais para o Coronavírus o afetar". Quem está dizendo isso não sou eu (apesar de eu concordar), mas o site de notícias especializado em assuntos LGBT britânico "Pink news". Pois é, mundo afora, essa é a fama do presidente do Brasil, que, claro, com sua atitudes em tempos de pandemia, piora. 

Bolsonaro, junto com Trump e Boris Johnson, são considerados os líderes mundiais mais "negacionistas" em relação ao Coronavírus.  Muitos dizem — e de novo eu concordo– que negar a o risco de uma doença e chamar de "apenas uma gripezinha" tem a ver com o fato dos três se portarem como machões, que não ligam para "frescuras". 

Veja também

Os colegas machos de Bolsonaro voltaram atrás, como se sabe. Trump, que antes dizia que existia exagero e que a América não podia parar, na sexta feira implorou para que americanos fiquem em casa. Motivo: o Estados Unidos virou o país com mais contaminados no mundo. E Boris Jonhson provou do próprio veneno. O primeiro ministro do Reino Unido anunciou na sexta feira que foi infectado pelo vírus.

Justiça seja feita: Johnson já tinha chamado a pandemia de "uma guerra" antes do resultado dar positivo. Quando o perigo chega perto, assusta até o mais "macho dos machos em negação".  Resultado: Bolsonaro ficou sozinho nessa de negar o vírus.

Quer dizer, ficou sozinho no cenário internacional. Por perto, ele tem um time de pessoas parecidas com ele. Um deles é o general Augusto Heleno, Ministro do Gabinete de Segurança Institucional.  Mesmo com resultado positivo para o vírus, o general interrompeu a quarentena e voltou a trabalhar uma semana depois de receber o diagnóstico. Seus vizinhos denunciaram que ele anda sem máscara pelo prédio onde mora, ameaçando a vida dos outros.

Bolsonaro, que teve contato com mais de 20 infectados, diz que seu teste foi negativo, mas até eu escrever esse texto, ainda não tinha mostrado o resultado. A uma repórter que perguntou sobre o teste, ele disse; "por que você quer saber, você vai dormir comigo?" Bem, é difícil entender o que ele quis dizer com isso, já que o vírus pode ser passado com um simples aperto de mão. A resposta de cunho sexual foi machista, o que não é novidade para o presidente.

Tiozão do churrasco

Os negadores do Coronavírus parecem com aquele homem que todos já conhecemos, em geral, alguém da família. Aquele tipo antigo, que acha que é muito homem para ir ao médico (como se essas coisas tivessem relação). Aqueles que jamais farão um exame de próstata "porque isso não é coisa de homem, pô" e também não são adeptos de check-up anual ou vitaminas. "Sou homem, não preciso dessas coisas". Para esse tipo, cuidar da saúde é frescura.

Bolsonaro, Heleno e sua turma fazem parte dos homens que sofrem da masculinidade super tóxica, aquela que faz com que, além de arriscarem a saúde deles, a dos outros também seja arriscada. Tipo um pai de família que se recusa a obedecer os limites de velocidade porque "isso é frescura!". E não é coincidência que ele mesmo, Bolsonaro, seja contra radares que medem velocidade, essa "frescura". O presidente mandou retirar os radares móveis das rodovias federais ano passado.

A conexão entre a masculinidade tóxica e a incidência de doenças não é novidade. Segundo uma pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde, os homens da região das Américas tem a expectativa de vida 5,8 anos menor que a das mulheres. Segundo o estudo, um dos motivos é o fato dos homens demorarem para procurar ajuda emocional e médica. Além da pressão para ser macho estimular comportamentos de risco (correr de carro, por exemplo) ou não usar capacete para andar de moto. 

Sim. Machismo mata. E as vítimas não são só as mulheres…

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos