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Minha vida com síndrome do pânico na pandemia: crises de falta de ar

Nina Lemos

03/04/2020 04h00

 

Alexandra Zanela diagnosticada com depressão e ansiedade

Quem sofre de ansiedade e/ou Síndrome do Pânico sabe bem: um dos principais sintomas das crises é falta de ar. E muitas vezes o que causa as crises é o medo. Digo isso porque tenho pânico e ansiedade há muitos anos. Nós, que somos muito (cerca de 18 milhões apenas no Brasil, de acordo com a OMS), vivemos um momento delicado. Com a pandemia do coronavírus e as normas de isolamento, temos mais motivos para ter crises – aliás, assim como pessoas não diagnosticadas também. E se ficamos com falta de ar, já achamos que estamos com COVID-19, que tem esse entre os principais sintomas.

Aconteceu comigo outra noite. Minha respiração ficou curta. Quanto mais eu ficava preocupada achando que tinha sido contaminada, mais curta ela ficava. Precisei tomar um remédio (receitado por um médico) e repetir várias vezes para mim mesma que estava "apenas" ansiosa.

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Sei que não acontece só comigo. Ouço desabafos constantes de ansiosos e panicados agora que chegamos à terceira semana da quarentena.

Caso da minha amiga Lia (nome fictício), de 36 anos.  Nos últimos dias, ela tem mandando recados em um grupo de Whatsapp, sempre de madrugada: "gente, eu estou panicando."

Lia, uma paulistana que mora em Berlim, foi diagnosticada com depressão e pânico em 2006. Achava que estava curada. Até que veio o coronavírus. "Há um mês, no começo da pandemia na Alemanha, tive uma gripe muito forte. Tentei ir ao médico e estava fechado. Comecei a não conseguir respirar. Liguei para o número de atendimento de coronavírus em Berlim. Mandaram uma ambulância na minha casa, me testaram e me trouxeram para casa. Só de ver o médico eu já melhorei", conta. Seu resultado foi negativo para o COVID-19. E com ele, a culpa. "Fico mal pensando que posso ter ocupado um médico e um teste de alguém que estava pior".

Mesmo com o resultado negativo, os sintomas não pararam completamente. Lia mora sozinha e está em quarentena (na Alemanha as pessoas só podem sair de casa para ir ao supermercado ou farmácia e, no máximo pequenas caminhadas) e seu trabalho está suspenso. "Passo o dia bem, mas de noite começa a me dar pânico. Quando vejo as luzes do meu prédio apagando, fico mal. Penso no que vou fazer se passar mal. Começo a ter ataque de tosse e me imagino pedindo socorro pela janela", conta. "Qualquer coriza é motivo para que eu pire."

A jornalista Alexandra Zanela, de 38 anos, passa por algo parecido. Sem ataques de pânico desde 2015, quando teve um princípio de enfarte causado por ansiedade, ela viu os sintomas voltarem durante a quarentena.

"Passei muito mal outro dia. De não conseguir respirar e tremer. Tive que passar o dia seguinte inteiro na cama." Segundo ela, além do próprio medo de pegar o vírus, o que a deixa mais aflita é a preocupação com a mãe, de 68 anos, e a irmã, que moram em outra cidade. "E ficar isolada em casa me faz muito mal. Ainda tem aquilo, para ir a qualquer lugar é como entrar em uma guerra: temos que nos preparar, colocar luva, máscara. É muito difícil".

Alexandra tem sido ajudada pelo marido, que faz meditação e, durante crises, a ajuda fazer exercícios de respiração.

Sozinha na quarentena

Para quem mora sozinha pode ser mais difícil. A videomaker Lívia Massei, de São Paulo, ficou 18 dias sem ninguém em casa. "Tive um ataque de pânico forte, como não tinha faz muito tempo. No meu caso, acho que relacionado a ler muita notícia sobre coronavírus", conta. Lívia decidiu furar a auto-quarentena e visitar um amigo. "Tenho que me proteger do vírus, mas ao mesmo tempo cuidar da minha saúde mental", explica.

Segundo o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospital das Clínicas, esse é um dos grandes desafios de quem sofre de ansiedade em tempos de pandemia: equilibrar a saúde física e mental. "Você tem que seguir todas as diretrizes de saúde pública, mas também tem que se cuidar da mente e continuar a sua vida", ele diz. Dar uma caminhada, por exemplo, em um horário em que a rua não esteja cheia pode ajudar, , segundo ele.

"Esse é um momento de caos. Você tem que manter uma rotina, para não deixar esse caos vir para dentro de você, porque senão você pode se desorganizar completamente", explica. Para isso, ele recomenda exercício físico, fazer todas as refeições, conversar com amigos e familiares, se arrumar para trabalhar. 

Segundo ele, nesse momento, todos estão sujeitos a ter ataques de ansiedade. No caso de quem já sofre do mal, ele recomenda não deixar de forma alguma de tomar medicação e, se for o caso, procurar ajuda de um terapeuta. "Muitas pessoas estão atendendo online, inclusive oferecendo tratamento de graça, só que você tem que procurar. Ninguém vai bater na sua porta oferecendo."

Pânico ou COVID?

Como diferenciar um ataque de pânico ou uma crise de ansiedade dos sintomas do coronavírus? "A falta de ar causada pela ansiedade é aguda e momentânea. Pense que se estiver com COVID-19, provavelmente, a falta de ar vai durar e virá acompanhada de outros sintomas. Se você estiver doente, vai saber, pois a falta de ar não vem sozinha", avisa.

Segundo ele, tanto no caso das crises de ansiedade e pânico como da pandemia, é importante lembrar que vai passar. "É um momento difícil, mas temos que ter em mente que não vai ser para sempre e também dosar o número de notícias tristes que lemos por dia."

Tentaremos…

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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