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Ter vida sexual quente na quarentena? Não inventem mais obrigações!

Nina Lemos

08/04/2020 04h00

Reprodução Instagram

"Marque um jantar com vinho e queijos, maratone uma série juntos, faça joguinhos em que cada um vai tirando uma peça de roupa…". Os conselhos foram dados por Geisy Arruda, com dicas para casais apimentarem o sexo durante a quarentena. Para os solteiros, ela recomenda comprar uns óleos, conhecer o próprio corpo com calma, paquerar e se masturbar. 

O que me pergunto: alguém consegue pensar em óleo em vez de pensar em álcool gel? E ficar sexy e fazer joguinhos como? Se a casa está uma bagunça e estamos há três semanas de pijama? Quem tá pensando em sexo? "Os adolescentes", diz uma amiga.

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Entre adultos, sinto que estamos preocupados demais até para conseguir ler um livro até o final, imagina se vamos conseguir ter um sexo ótimo. "Libido? A minha está a zero", diz um amigo, que conta não ter a menor vontade de transar depois de ler sobre "números atualizados do corona."

Além da falta de vontade, a epidemia ainda criou barreiras reais. Quem está solteiro não pode transar com alguém que conhecer em um aplicativo. E, mesmo entre os casados ou namorados que moram junto, muitos médicos recomendam não transar se um deles manifestar sintomas. Como vai ser? Vamos parar tudo se ele espirrar? 

Sim, tem gente que diz que está transando muito na quarentena. Ótimo. Só que acho que tudo bem se você não está transando também. E não acho que seja a hora de se preocupar em apimentar a relação em um momento em que temos que: higienizar todas as compras que fazemos no supermercado com álcool-gel (ou água e sabão) e planejar uma, até então, simples ida ao supermercado como se fosse uma guerra.

Alguém precisa de mais essa pressão?

Mas as dicas sexuais, daquelas do estilo "como enlouquecer um homem na cama" sempre foram um bom negócio. E não é só Geisy que tenta lucrar com ele.  Do outro lado do mundo, Gwyneth Patrow, de um jeito mais cool, fez um vídeo com uma coach de casais para seu site, o Goop, onde confessa que ela e o marido estão com dificuldades para ter "intimidade".

A atriz também pediu ajuda para uma "amiga" que não estaria "se sentindo sexual." A terapeuta disse que isso era absolutamente normal, mas ofereceu um curso online (há!). E, Gwyneth, alguns dias depois, postou em seu site uma matéria sobre vibradores para a quarentena. Todos facilmente comprados online. Ou seja, tudo faz parte do negócio milionário de Gwyneth – aliás já perceberam como o negócio do "prazer" ganha muito com nossa frustração? Quanto mais a gente se sente perdedora, mais eles lucram.

Nada contra comprar ou vender vibradores durante a quarentena, muito pelo contrário. Mas, sim, me causa alguma preocupação que, em um momento como esse, mulheres (e homens também!) se sintam na obrigação de "apimentar" o sexo ou de buscar "a intimidade perdida." Ou, no caso dos solteiros, conseguir o melhor sexo solitário, ou um sexo virtual incrível com um caso.

Massacre para as mulheres

Se você está tendo um sexo incrível no momento, ótimo. Mas, se não, tudo bem também. Depois da cobrança de ser produtivo e criativo na quarentenas, vamos nos cobrar também… ser sexy? 

Segundo a psicanalista Aline Accioly Sieiro, a quarentena está mostrando "muitos mal estares da civilização". "Uma delas é o aumento da disparidade de gênero. Então, tudo está sobrando mais para a mulher, como sempre. Só que agora é muita coisa, um massacre.  Ela tem que fazer a comida, arrumar a casa, saber se está todo mundo bem, cuidar de todos e fazer home office. As mulheres estão carregando tudo nas costas", diz. Segundo ela, se cobrar que a vida sexual tenha que estar ótima em um momento desses chega a ser uma "perversão."   

E é normal sentir baixa libido? "Claro. Tudo o que a gente precisa nesse momento é ser livre. Sentir-se como quiser. E não se sentir mais pressionado", ela diz.

Conclusão: você não tem que fazer (ou querer) nada (a não ser todas aquelas coisas que você já tem que fazer) durante os dias de pandemia… Bora lavar as mãos?

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos