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BBB: Ivy é a prova de como nós, brancos, podemos ser racistas sem perceber

Nina Lemos

10/04/2020 04h00

O BBB 2020, que começou como o BBB das feministas, agora virou o BBB do racismo. Sim, as coisas não são tão simples. Não existem mesmo fadas sensatas (nem princesas, lembram?) e mesmo mulheres que se dizem feministas são racistas, o que faz tudo ficar com um gosto mais amargo.

Para quem não sabe nada do assunto: existem dois participantes negros no programa, a médica Thelma de Assis e o ator Babu Santana. E, durante a edição, eles têm sido alvo de várias formas de racismo.

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A modelo Ivy é a responsável pelas atitudes e falas racistas da vez. O curioso é que ela não acha que é racista, muito pelo contrário. Ela adota aquele discurso de que "todos somos iguais". Essa semana, disse que odiava racismo de uma maneira muito torta:

"Eu sou super contra julgar alguém por conta da pele, isso não existe. Mas ficar usando disso também eu não concordo. Ser preto não é malefício nenhum. Quanto mais morena eu fico mais eu gosto. Eu gosto é muito".

As versões de "eu não sou racista, até tenho amigos negros" foram atualizadas com sucesso.

De fora da casa, o ex-marido da modelo se meteu, disse que ela não era racista, mas só alienada mesmo. Ou seja, faz sem perceber? Pode ser. Mas faz.

Para nós, brancos, não termos atitude racista não podemos ser "alienados". Isso porque fomos criados em uma sociedade racista. Se a gente não se informa, não lê sobre o assunto e não tenta mudar, vai ter comportamento racista mesmo. O jeito que temos de, pelo menos, minimizar as nossas ações racistas é tentar aprender. E para isso, claro, precisamos ouvir os negros.

Ivy, pelo jeito, vai sair do BBB sendo acusada de racismo (como já aconteceu com a feminista Marcela, que também não se achava racista) e vai continuar sem entender. 

Isso porque ela não parece querer escutar os companheiros negros da casa sobre o tema. Depois de fazer a tal declaração sobre a pele morena, ela disse que tinha conversado com a médica Thelma e perguntado se era ok que ela falasse que gostava de tomar sol para "ficar preta".  Thelma, negra, disse que não, não era legal nem certo! E o que Ivy fez? Continuou falando a mesma coisa. E ainda por cima para justificar que não era racista. Ou seja, não escutou. 

A modelo afirmou também que não existia racismo no BBB. Bem, algumas atitudes racistas foram adotadas por ela mesma. E em outras ela estava perto. E riu. 

Duas cenas explicitaram o racismo do BBB dessa edição.

Em uma delas, Ivy fez piada com o pente garfo usado por Babu. 

Em outra, ela riu da brincadeira de outra amiga confinada, que chamou a base de Thelma de "barro". Ivy achou tudo muito divertido. Alienada ou racista? Faz diferença? Para quem é vítima de racismo, provavelmente não. 

Pessoas negras que viram as cenas relataram no Twitter, por exemplo, o quanto é duro ouvir esse tipo de comentário, se referindo a "cabelos ruins", pele suja, etc. São coisas pequenas. Mas que doem e refletem, sim, uma sociedade racista.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos