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Alemanha começa a abrir. Mas a vida pós "lockdown" não é nada normal

Nina Lemos

07/05/2020 04h00

Na Alemanha, estabelecimentos estão reabrindo. Mas com obrigatoriedade de uso de máscaras e distanciamento  (Foto: Nina Lemos)

Ainda esse mês, os jogadores dos clubes de futebol da Alemanha devem poder voltar a treinar. Detalhe: os atletas estão proibidos de tocar uns aos outros em campo e devem manter distância social. Ou seja, eles não podem se aproximar mais de 1,5m de cada um. Quando os jogos voltarem, eles jogarão em estádios vazios.

Esse exemplo bizarro (não sei como isso vai funcionar) mostra bem como está sendo a volta à "normalidade" na Alemanha. Assim como muitos países da Europa, o país começa a "abrir" depois de quase dois meses de todo o comércio fechado (menos supermercados e farmácias), as aulas interrompidas e patrulha da polícia na rua para evitar aglomerações em parques, além de proibição de visitas nas casas.

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O "novo normal" não tem nada, nada de normal. Sim, o país conseguiu achatar a tal curva do Coronavírus com enorme sucesso, como já disse algumas vezes aqui no blog. O sistema de saúde nem chegou perto do colapso, apesar de os números serem muito altos, cerca de 165 mil casos e 7 mil mortes.

Também não teve um lockdown completo, mas uma versão "suave". Mesmo no pior momento, no início de abril, quando o país registrava cerca de seis mil casos por dia, a ida a parques para caminhar, por exemplo, era permitida. Hoje, existem 130 mil curados na Alemanha e cerca de 30 mil casos ativos. O pior já passou. "Podemos dizer que passamos pela primeira fase com sucesso, o que não quer dizer que estejamos longe do perigo, mas que agora podemos ser mais corajosos", disse a chanceler Angela Merkel, na quarta-feira.

A coragem significa: todas as lojas serão abertas. Mas poucos clientes podem entrar delas. Dentro, as pessoas devem manter distância de 1,5 metros a dois. E usar máscara, claro. 

No caso de Berlim, o governo pensa em abrir os restaurantes, mas, para isso, as mesas ficarão separadas por essa distância e de preferência ao ar livre. Eles estudam como isso vai acontecer e pensam em deixar restaurantes colocarem mesas, por exemplo, em estacionamentos. 

Ou seja, você, que está no Brasil, vivendo o pico da infecção, não pense que a sua vida vai ser normal quando o pior passar. 

Aqui, oficialmente, a "pós quarentena" será nessas condições até 15 de junho, data para qual o decreto Kontaktverbot (proibição de contato, em tradução livre) foi ampliada com esses pequenos relaxamentos.

A vida "normal" agora é assim. Ontem, tive coragem de pegar o metrô. Andei uma estação sem encostar em nada. Estava relativamente vazio e todas as pessoas estavam de máscaras (é obrigatório). No mercado, todos tem que usar o carrinho (para manter distância) e existe uma máquina com papel higienizado para que você limpe o lugar onde encosta nele. Perto dos caixas, há marcas no chão para determinar a distância de 1,5m entre as pessoas. Todos obedecem. 

Na volta para casa, a pé, observei o comércio: lojas pequenas já tem autorização para abrir mas poucas se aventuraram. As que estavam abertas tinham avisos na porta, pedindo para que os clientes entrassem de máscara e apenas dois por vez. 

Na loja de 1 euro, uma versão das lojas brasileiras de 1.99, tinha uma pequena fila na porta, com clientes esperando sua vez de entrar, já que o número de pessoas dentro de todos os estabelecimentos é limitado. Padarias estão abertas, mas seguem a regra de dois clientes por vez e ninguém podem sentar no balcão. As pessoas pegam os itens para comer em casa ou na rua.

Metro de Berlim: máscaras são realidade. (Foto: Nina Lemos)

Ontem, depois de dois meses, tive coragem de ir ao banco. A fila, com distância social de dois metros, chegava na rua. No balcão de atendimento (assim como na maioria dos supermercados e farmácias) existe um vidro que nos separa do bancário. E todas as pessoas lá dentro estão de máscara.

Alguns cabeleireiros também estão abertos. A espera é do lado de fora. Nada de sentar para ler uma revista. Dentro, novamente, todos estão com máscaras.

Cinema? Teatro? Clube? Isso é sem previsão. E, vale lembrar, todos os relaxamentos podem acabar a qualquer momento, se os números voltarem a subir. 

Ou seja, vamos ser realistas, pessoal. Não vai ter vida normal até (no mínimo) ano que vem, quando existir uma vacina (e acesso a ela). 

O medo ainda existe em cada esquina vazia de uma cidade que controlou a epidemia. Afinal, em Berlim ainda existem cerca de 1 mil casos ativos. Eu que não vou, por exemplo, no cabeleireiro, apesar de já ser permitido.

Pela primeira vez em dois meses, penso em encontrar amigos. Mas vai ser ao ar livre, no parque. Vamos sentar na distância recomendada e estaremos todos de máscaras. Não vamos nos abraçar ou encostar nos outros, coisa que o presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, insiste em fazer. Detalhe: o Brasil está  no auge da epidemia. Momento em que, por aqui, a gente só saía correndo para ir ao mercado mesmo. 

Sabe aquela ideia de que depois da quarentena vamos dar uma festa? Pois bem, ela não existe, já que festas, mesmo em apartamento, continuam proibidas. Festa, mesmo, só depois da vacina. Vai demorar. É melhor a aceitarmos isso. Inclusive, porque é a única solução. A outra é muita gente morrer. E essa opção não queremos, certo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.